Sobre Mark “Chopper” Read, Hunter S. Thompson e seus “COJONES”.

El Toe-cutter

Hoje encontrei Fear and Loathing (o livro) na estante de livros de bolso enquanto procurava por algum presente pra namorada (http://pseudoglamour.wordpress.com/). Também encontrei um DVD de Woody Allen por 9,90. Essas coisas normalmente acontecem quando não tenho qualquer dinheiro no bolso. De qualquer forma, andei satisfazendo minha fúria consumista com 1) Greenwich Village 1963, livro que achei por 5 reais no Hiper BomPreço e que vale a pena por tratar de um dos temas que mais me agradam – contracultura 60/70 – e 2) downloads! Depois de muito tempo com o Megaupload travado em algum IP que já tinha expirado o limite da baixação, consegui sugar um filme que queria ver há algum tempo, o CHOPPER com o Eric Bana no papel de Mark Brandon Read , um bandido e assassino australiano.

Não ando muito ligado na parte técnica ultimamente (estou sem saco mesmo), então foi um tanto agradável assistir um filme só pela história e sem especificamente procurar também algo do gênero horror pra assistir (as ultimas coisas que assisti do gênero não me agradaram muito, com exceção, talvez, de CARRIERS que valeu a hora e meia – claro que estou falando dos filmes ATUAIS que andei assistindo, já que os antigos quase sempre acabam valendo).

Sobre o CHOPPER é o seguinte: é um filme que merece ser visto com a mente aberta e, provavelmente, é um filme que vai agradar mais aos homens (como de costume em tudo que eu posto no GOREBAHIA, sem preconceitos mas é bem verdade). O filme não procura redimir o personagem por nada do que faz e não faz um histórico da infância do cara, simplesmente começa com ele já preso e, ainda assim, no auge da malandragem… o roteiro segue uma linha bem cômica e estilizada na linha de Trainspotting – ainda que bem menos afetado, o que dá um outro ar. Fica claro que para o diretor Andrew Dominik (do ótimo O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford) o foco aqui não é exatamente o estilo, mas os diálogos que geram situações tensas e intrincadas e a complexidade de um personagem que se contradiz a torto e a direito.

O grande lance que atrai para o filme é que, apesar de ser uma figura reconhecida no “outro lado da moeda social”, Mark Brandon Read se tornou um escritor de best-sellers sobre seus próprios crimes. Pelo visto ele não lucra muito com as vendas, já que o país proíbe que “criminosos” lucrem royalties – os mesmos são recolhidos como impostos -, ou seja, vai lá saber quem é mais criminoso nessa história.

El Ear-cutter

O filme aplica sua dose de violência logo de início, onde se concentram as cenas mais pesadas do filme todo – ou seja, quem passar por aí curtindo pode ficar um pouco menos sorridente mais pro final, e quem passar por aí chocado eu duvido que se interesse pelo resto; mas o fato é que o filme chega a um fundo de verdade interessante sobre mercado, sociedade, e a vida em si. Algo mais ou menos assim: existem tantas formas de viver quanto você quiser, o risco é só seu, e às vezes as opções que não estão exatamente lá podem ser garimpadas, se você tiver coragem pra isso.

Pra um bandido que, de acordo com o filme (que se baseia nos livros do próprio), seguiu essa vida por opção e não se arrepende em nada, pois sua visão era apenas a de um “operário em um campo de trabalho” – sair para um OUTRO campo de trabalho TOTALMENTE inverso (o de escritor), é algo que demanda muita coragem. Afinal, sendo já consagrado como uma pessoa deturpada (quem se interessaria em obter qualquer tipo de conhecimento escrito que advém de um suposto derrotado social?), e ainda assim conseguir sucesso em sua empreitada é, no mínimo, uma lição que diz: “quem tem culhões alcança o que quer”. Embora essa lição não venha exatamente do tipo de pessoa que se espera. O filme tem, então, uma perspectiva quase de auto-ajuda? Eu diria que tem, sim. E se auto-ajuda fosse escrota desse jeito eu seria o primeiro a estar na fila pra comprar os livros de Augusto Cury, mas esse aí é limpinho demais, certinho demais, e sinceramente não deve ter passado por muito nessa vida (ganhando o que consegue tirar por uma hora de palestra).

A dose de coragem transmitida por Mark “Chopper” é também extremamente mórbida e advém de uma espécie de desprezo perante a vida. A mesma despreocupação com que ele desfere golpes de faca na cara de um inimigo de cadeia e, logo após, pede desculpas e oferece um cigarro enquanto o cara se esvai em sangue, é a despreocupação que observamos enquanto ele mesmo LEVA facadas no tórax, e, entre um intervalo de lâmina e outro, tenta conversar com o agressor: o abraça, pede para que pare com isso e façam as pazes. Ele sublima a dor e a lógica mortal da situação. Quando preciso, corta as orelhas para ser transferido de seção. O colega de cela escolhido pra “passar a navalha” na cartilagem treme feito bambu, enquanto CHOPPER simplesmente diz: “corte logo, que frescura!! Arranque fora!!”. O que deve ser feito, deve ser feito.

El Dope-eater

Então, hoje quando vi o Fear and Loathing na prateleira da livraria me lembrei do Hunter Thompson e associei o tipo de coragem insana do Chopper ao maníaco do jornalismo gonzo. É uma coragem que admira pelo masoquismo – embora no caso do Hunter não exista uma ligação com o corpo ou com uma dor física. É uma questão apenas social onde ele É um jornalista ainda que NÃO QUEIRA SER um jornalista (conforme se convenciona, ou oferecendo o que se espera de um). Ele constantemente põe em risco sua própria carreira com atos (ainda que muitas vezes inconscientes) que acabam sendo prejudiciais mais para si mesmo do que para qualquer instituição da sociedade contra a qual irrompe. A “inconsciência” que eu cito, inclusive, é claramente uma inconsciência desejada e procurada (através de todo tipo de droga possível), pois para o seu “grande ato” ela deve ser dizimada. Algo como cortar as próprias orelhas. Por isso mesmo o capitulo inicial do livro (e uma sequência maravilhosamente bem dirigida por Terry Gilliam na adaptação cinematográfica)  já demonstra a perspectiva do autor: contratado para cobrir uma corrida no deserto em Las Vegas, além de papel e uma máquina de escrever, o mesmo se equipa com uma mala onde carrega maconha, cocaína, LSD e sabe-se lá quantas coisas mais. E a preocupação do mesmo é se isso tudo vai ser bastante pra cumprir com o trabalho. Certamente, o trabalho vai além do que foi pedido. Acho isso legal, um tanto pró-ativo e, se os livros de auto-ajuda empresarial que versam sobre pró-atividade fossem escritos pelo Hunter, eu também compraria.

Saul Mendez para o Gore Bahia,
07/06/2011 

Liam Neeson estava lá.

 

No cantinho, de boa.

Enquanto a feijoada e o churrasco rolavam e os primos encachaçados da minha mãe jogavam baralho, a Rede Globo de Televisão transmitia na sessão da tarde um filme fantástico muito foda com um ciclope e um grupo composto de ladrões, um mago, um velho sábio e por aí vai, seguindo bem aquela linha Dungeons and Dragons que fervia em torno da minha infância. Algum idiota devia estar tentando me botar pra provar cerveja – no auge dos meus sete anos de idade – e alguma prima chata devia estar querendo brincar e precisando de um marido pra compor a casinha, mas eu tava mesmo era vidrado em uma sequência louca que se passava em uma espécie de pântano: Areia movediça, galera chegando com armaduras negras e lasers, luta de espadas… tava tudo ali. E Liam Neeson também tava ali, no meio do elenco de KRULL, um longo e marcante filme de fantasia que bota o Lord of the Rings do Peter Jackson no chão – ainda que não chegue aos pés do Lord of th Rings literário, de onde suga estrutura e muitas passagens, como a aranha gigante da montanha que existe praticamente em uma mesma posição na timeline onde Laracna surge na obra de Tolkien. Ainda assim, que filme! Bem conduzido, continua um bom filme, pois tem aquela capacidade das boas coisas velhas que possuem o mesmo apelo a cada década que passa, vide Luluzinha e afins.

Se preparando pra falar umas verdades.

Como um Gawain esperto e sem papas na língua, Liam Neeson também está lá, em Excalibur, botando lenha na fogueira e soltando a palavra pra deixar bem claro que a carne real de Guinevere andava sendo cavalgada por outro que não o Rei Arthur. No tempo em que a espada era a lei, ainda se confiava em adaptar os bons legados da humanidade para as telas, sem Clive Owen e sem tentativas de precisão historico-científica para lendas, folclores e afins. Em um filme longo para os padrões atuais, temos a mais bem contada versão da saga arthuriana já realizada para as telas. Cenas de batalha sem Orlando Bloom; Ridley Scott longe das linhas de produção; nenhuma computação gráfica desnecessária; Cores e cenários inspirados, e fantásticas sequências de combate testa-a-testa como Lancelot vs. Arthur, Lancelot vs. Gawain, e o rápido porém não menos belo Arthur vs. Mordred. Longe de ser perfeito em muitos aspectos técnicos, mas perto do sublime ao retratar a saga completa como nenhum outro e – isto é bom – sem gerar o temido efeito Alprazolam.

Saint Hauer

Liam Neeson não estava lá: Conquista Sangrenta, do Verhoeven. Mas Rutger Hauer estava, e tão bem quanto em Blade Runner. Aliás, por que motivo o Hauer nunca despontou? Será que é porque ele nunca des(a)pontou, e o interesse maior de holywood em verdade é nos deixar tristes, com a sensação de que fomos roubados em nosso dinheiro e em nosso direito à felicidade? Título Original: Flesh + Blood. E estão os dois lá, do início ao fim, bem presentes, a carne e o sangue! Pro prazer geral dos vikings de plantão! Não arrisco dizer que tenha sido o melhor que Verhoeven já fez, mas dentre os filmes que muito amo deste diretor excepcional, este é o que mais me conquistou. E foi uma conquista sangrenta, sim. Jennifer Jason Leigh, obrigado pela nudez explicita constante e pela melhor cena de estupro  – consentido – que já assisti. Rutger Hauer, você é um deus da atuação. Poledouris, componha a trilha da minha vida. Verhoeven, me passa um pouco dessa erva que você fuma. Ela é boa.

E, Neeson, você estava no caminho certo. Pena que você não caiu também nas graças de Verhoeven… se bem que: o que é melhor, ser um ilustre desconhecido como Rutger Hauer ou fazer parte do elenco de ESQUADRÃO CLASSE A e SE BEBER NÃO CASE 2? Perguntas difíceis da vida.

Saul Mendez para o GORE BAHIA, 28/03/2011

Danny Trejo Feat. Lindsay Lohan

dia de praia em família.

Do melhor ao pior que assisti na nova tecnologia de cinema 3D até hoje, minha lista começa com Avatar e termina com Alice. Como só vi três filmes dentro desse grupo, posso revelar que o filme do meio foi a animação Como Treinar seu Dragão, que por muitos motivos se manteve a léguas de distância dos caminhos miseráveis em que prossegue Tim Burton. Mas nada melhor me esperava do que aquela que eu acreditava que seria a minha pior decepção: Piranha 3D. Não, eu não assisti em 3D – mas vou sofrer eternamente por não poder ter visto esse espetáculo. E devo me redimir: Alexandre Aja, nunca mais desconfiarei de você novamente!

O filme de Aja não só é um dos melhores filmes a ser lançado ultimamente, como que simplesmente é o melhor do mainstream de horror em muitos meses de seca. O ultimo lançamento em cinema, no gênero, foi Sorority Row (2D) e Premonição 4 (3D). Nenhum dos dois eu cheguei a assistir, mas não é preciso nem chegar perto deles pra sentir o cheiro de inferioridade.

Brook by Aja.

A primeira coisa que é um acerto no filme de Aja: a duração. Um filme extremamente curto, com seus 88 minutos de exibição que são um verdadeiro espetáculo. Espetáculo, inclusive, é a palavra certa: reconhecendo que o esperado pelos espectadores do cinema 3D é, mais do que um filme, uma experiência, Aja desce a mão com tudo e sem pena. Esse é o seu segundo acerto. E vão e vêm as mulheres nuas, com destaque para Kelly Brook e Riley Steele em uma cena que deixaria Fulci orgulhoso; queeeee zumbi vs. tubarão que nada! é aranha vs. aranha debaixo d’água e com pés de pato. É o Aja passando na frente de Tinto Brass com seus mirabolantes planos de um pornô 3D. E quando a sangueira deve rolar, os malabarismos de Tubarão 2 não chegam nem à ponta da unha do mindinho dos pés daquilo que Aja é capaz de realizar. Em meio a isso tudo, o filme consegue ser leve sem ser desleixado, e tampouco tenta se passar por sério: muito pelo contrário, se diverte com os espectadores, regurgitando até pinto mutilado em três dimensões. Não há filme melhor no momento. E, mesmo sem ter assistido na lisergia do 3D, já risquei Avatar da minha lista para garantir o devido lugar de Piranha 3D. A César o que é de César.

O sangue.

O sexo.

O interessante aqui é a moda do featuring, um estratagema do mercado holywoodiano que se observa em outros dois filmes lançados atualmente de forma muito mais explícita. Enquanto no filme de Aja temos a participação breve de Eli Roth em meio a nomes menores mas de interessante advertising como a Riley xoxota Steele (nada como piranhas em um filme sobre piranhas), em Machete de Robert Rodriguez o sistema de featuring é a grande base da campanha promocional – e em The Expendables de Stallone, não só a base para a promoção, mas a base para toda a existência do filme.

Gêmeas enfermeiras e suas psicoses ambulantes.

Machete é um dos lançamentos legais em cartaz este mês nos EUA, que perde em ritmo de diversão pra Piranha 3D mas não deixa de ser um filme de grande (baixo) nível e que merece ser assistido com a devida atenção. Digamos que é o Grindhouse pt. 2, sem a metade do Tarantino. Mas neste, Robert Rodriguez viaja menos no fantástico e na busca pelo grandiosismo, fazendo um filme um pouco mais consistente que o segmento Planeta Terror de Grindhouse. As falhas, digamos, são as mesmas encontradas em Era Uma Vez no México, mas assim como essas falhas não desmerecem o bom resultado em Era Uma Vez..., elas também não destroem as qualidades encontradas em Machete. A seqüência inicial, inclusive, é uma maravilha retrô com toques modernos de telefonia presidiária. Nunca na história do cinema uma vagina foi explorada dessa maneira. Ponto pra Robert Rodriguez.

Mudança de Hábito 3

Outro ponto vai para o sucesso que o filme obtém em, pela primeira vez, conferir um apelo feminino à figura de Michelle Rodriguez: ainda que interpretando uma personagem masculina, como de costume, a câmera de Robert R., algumas pitadas de atuação, desvios no roteiro e as escolhas do figurino revelam uma felina onde antes se observava o próprio Mike Tyson. Em meio a isso tudo, Cheech Marin brevemente como um padre maconheiro (Cheech e Chong feelings), Robert deNiro sempre muito Robert deNiro, e dois pontos altíssimos: Steven Seagal (que talvez estivesse no filme errado, ou não seria ele um potencial mercenário?) no melhor papel que já fez, e no melhor filme que já fez; e Lindsay Lohan, nua, apaixonando-se pelo hábito em uma cena hilária e surgindo fantasiada de freira pistoleira. Mais piada que isso só a cena em que ela é buscada pelo pai na boca do tráfico, em estado altamente dopado e gofando como Lindsay Lohan. E parabéns a Danny Trejo, o Machete, que não desfere quase nenhuma fala o filme inteiro – mas desfere muita facãozada, bisturizada e termômetrozada -, que vai se tornar um ícone e, ainda por cima, ganhou um beijo da Jessica Alba. Parabéns, cucaracha.

Bom logotipo, Rambo.

Já o filme de Stallone, enquanto acerta no featuring e nas doses de violência – além de se mostrar como uma espécie de retorno aos filmes de ação quase artesanais – erra na falta de fêmeas em cena. A testosterona falou mais alto e temos boas cenas de violência e gore aqui, à base de armamento pesado, mas a ambientação projetada para o filme não inclui espaço pra nenhuma mulher. Abre-se uma exceção para Gisele Itié (!), mas, mesmo que ela seja um ponto crucial para o desenvolvimento do plot, ela só funciona como estopim para a violência e não participa ativamente nem fisicamente. Quase não aparece dentro das lentes da câmera, quanto mais oferecendo um pouco de pele à mostra para os espectadores másculos. Em Machete se exploram bastante as mulheres nuas em cena, mas tudo se mantém em um nível respeitável, nos moldes americanos (leia-se não mostrar pêlos pubianos ou curvinhas vulvilineas), enquanto que em Piranha 3D a festa corre solta. Será que os bombados Stallone, Dolph Lundgren, Jason Statham, Mickey Rourke, Terry Crew… têm coração? Têm ideologias contrárias à exposição de peitinhos dançando sob o efeito da gravidade? Ou estão tão ocupados malhando ao som de “Boys are Back in Town” do Thin Lizzy? E, aproveitando a seqüência de perguntas: porque Van Damme não está neste filme?…

"Dica de atrizes e figurino, para my friend Stallone Cobra." - Alexandre Aja

Por fim, Mercenários é válido pela violência exacerbada e por reunir tanta figura do submundo dos filmes de ação, mesmo em cenas curtas e pessimamente atuadas que, no entanto, ironizam os próprios atores presentes (ex.: a seqüência da igreja, única cena em que atuam O Exterminador da Califórnia e Bruce Willis, assim como as cenas em que Jet Li sacaneia a si mesmo quanto a sua altura). O filme também é capaz de deixar os espectadores ansiando por armas de fogo que transformam um ser humano em geléia e desejando algum dia testar uma: no chefe, no vizinho, no playboyzão da esquina, na ex-namorada, por aí vai… Mas como não existe desejo maior do que filmar Kelly Brook e Riley Steele de biquíni em uma lancha, entre Stallone e Rodriguez, fique com Aja: ele nunca erra, nem nas doses de violência, nem nas doses de nudez feminina, nem no estratagema de featuring. Será que no próximo filme ele convida a hoje esquecida Tawnee Stone? Eu estou na torcida e compro o ingresso com antecedência. 3D, por favor.

Saul Mendez para o Gore Bahia, 06/09/2010

O Horror Dominará o Mundo.

Sim, eu sei o que parece.

Quando observo a quantidade de bons festivais voltados para o cinema fantástico e de horror que existem ao redor do mundo – alguns tão grandes e tão patrocinados quanto um Comic Con – eu só tenho a perceber o crescimento do nicho, neste século recém-nascido, de uma forma verdadeiramente putanesca (longe de conferir o mesmo sentido da receita de macarrão). E isto, dentro do sentido que aplico ao termo, pode ser entendido de duas formas: seja como algo literalmente, putanescamente vendido, ou como algo grandioso e benéfico. Isso sempre funciona pelos dois caminhos e depende muito de como os realizadores se utilizam da ferramenta “festival”.

Enfim, não tenho como falar mal de festivais como Fantasporto e Sitges, por exemplo, que chegam já às suas milenares edições e ainda prestigiam e vêem aquilo que ninguém quer ver. E premiam. Minha aversão à premiação como oficialização de conchavos políticos, ainda assim, não se aplica como um fator negativo capaz de reduzir a importância da existência desses eventos. E essa lista de festivais do bom cinema vai além da península Ibérica, partindo para Canadá, Japão, Austrália, Itália (claro)…

Paisagem Fantasportina.

Esses festivais e seus filhotes que anseiam por ser um reflexo perfeito do sucesso paterno compõem, de fato, a tubulação por onde escoa a produção criativa da área. A falta de festivais ocorre comumente pela falta de patrocínio, pela falta de incentivo governamental; e da falta de festivais decorre, sendo essa a tubulação principal, a problemática da distribuição – que se procura driblar hoje principalmente nos recônditos da Internet. Mas a esse assunto não interessa chegar agora, de qualquer forma.

Retornemos.

Onde eu quero chegar exatamente é à expansão do gênero horror no cinema e nas produções independentes, seja dentro de seus próprios limites narrativos quanto em suas barreiras mercadológicas. Muito provavelmente isso se deveu ao acesso gratuito por Torrent, E-mule, e seus predecessores Kazaa, Soulseek… a velharias esquecidas do cinema setentista e outras pérolas de décadas passadas. Houve uma explosão de curiosidade na geração DIY, nos entusiastas da cultura “indie”, e muito da importância dada aos filmes “B” hoje (sobre os quais já se diz, carinhosamente: “B de Bom”) advém desses jovens alienados na frente de um computador. Uma população de comportamento pouco sociável da qual não se esperaria a formação de um público para inscrição em festivais. Diriam as pesquisas. Porque, na realidade, basta tirar a limpo os números com os organizadores e patrocinadores de todos esses eventos citados lá no início. Eventos que tendem a crescer em número e grau.

Belial, é você?

Alguns desses jovens entusiastas e curiosos se tornaram músicos renomados das incursões independentes mais variadas que existem hoje no rock (se é que ainda podem ser chamadas de “rock”). E a influência do gênero horror fantástico pode ser observada em alguns de seus clipes atuais, como o já menos transmitido “Flash Delirium” do MGMT, o recém lançado “Congratulations” da mesma dupla e também o videoclipe do Yeasayer lançado hoje: “Madder Red”, que nos primeiros segundos já remete ao Basket Case do Henenlotter. Em minha juventude o mais perto disso que as produções de videoclipe chegavam – em qualidade – vinham da banda Bush do metido-a-besta Gavin Rossdale, especificamente o clipe da música “Greedy Fly”, que era praticamente um mini-filme. Na linha dos clipes de metal nem vale citar, porque muitas bandas dentro dessa sonoridade seguem, desde sempre, por essas trilhas – e é o mais lógico que fazem. Em uma comparação: não surpreende Argento dirigir um giallo, mas se Sandra Bullock decide dirigir um… bem, eu ia querer ver o resultado. É aquela velha história de que “notícia é quando o homem morde o cachorro”… e eu acho que, no caso dos clipes “indie” de MGMT e Yeasayer, o espetáculo vale a pena, pois são trabalhos muito bem realizados. É válido também ficar de olho nesses diretores, já que atualmente o cara que filmou “Smells Like Teen Spirit”, do Nirvana, refilmou “A Hora do Pesadelo” (que eu não assisti e tenho medo do resultado. Já basta ter percebido que a “refilmagem” de O Lobisomem se parece mais com um Van Helsing 2). Enfim, uma indústria alimentando a outra: e, em meio a isso tudo, o gênero ganhando força e mais “tubulações” para o prestígio dos realizadores, vislumbrando um futuro ainda mais putanesco.

MGMT – “Flash Delirium”:

Yeasayer – “Madder Red”:

E pra finalizar, Receita de Macarrão à Putanesca:

http://cybercook.terra.com.br/receita-de-macarrao-a-putanesca.html?codigo=3984

Saul Mendez para o Gore Bahia, 26/08/2010

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Divine, Richard Stanley e outras questões.

22.19

21:11. Escrevo tentando expressar a beleza do Pink Flamingos de John Waters, mas não tem beleza nenhuma naquilo. O filme é feio, e como apologia ao feio é uma das coisas mais feias e legais que alguem pode assistir. Não vou diminuir dizendo que é bonito não. É feio mesmo, e a questão é que quando o mar é bonito, alguma merda tem que boiar e se fazer ver.

21:23. Devo acrescentar alguns detalhes. Colocar o ator pra comer cocô de cachorro na frente da câmera é uma coisa cruel e legal de fazer. Aprecio muito, e provavelmente me apaixonei por Park Chan-Wook ao saber que ele botou o ator de Oldboy pra morder realmente aquele polvo. VIVO. Bons cineastas exploram (literalmente) os atores. Essa é a escolinha do Hitchcock, onde todos os atores são mera boiada.

21:13. Nisso de refletir, penso que já chega de pobrismo nas artes nacionais, e sou chato repetindo isso pra muita gente. Mas pelo caminho inverso (ou nem tanto), se é pra filmar pobreza, chega de ser com a trilha do consultório do dentista e chega de usar essas lentes de Sebastião Salgado. Existe beleza no descascado da parede, mas o foco pode ser muito mais Divine.

22.21

21:17. E o Richard Stanley fez um processo retrógrado de artista do vermelho arenoso pra antropólogo documentarista. Quem assistiu Hardware sabe que é a pérola ocidental cyberpunk dos anos 90, provavelmente a única que vi semelhante ao Tetsuo do Shinya Tsukamoto (que é dos 80 mas tão moderno quanto). Ainda assim, como não assisti os documentários do cara não tenho como saber se ele privilegiou o gênero “documentário” com uma visão mais deturpada, ou se ele deturpou sua própria visão com uma grande angular política.

21:35. O interessante é que em Dust devil (versão do diretor) se observam as nuances boas de  importar a cultura local pro contexto ficcional, no caminho inverso do que discuto acima. A visão documental relativa à cultura africana invade o filme e por vezes afeta até os rumos narrativos e a própria linguagem, que é muito mais simbólica que aquela vista em muitos filmes do gênero. Não cito Lynch pra exemplificar, mas sim o Lynch antes de Lynch: Artaud.

00:10

23:16. Logo abaixo: é o momento em que minorizo Tarantino. Muito provavelmente eu vou me contradizer em outras ocasiões, já que este é um assunto conturbado, mas talvez seja apenas a necessidade de expressar a maestria de Waters.

21:43. Pink Flamingos deveria fazer com que Tarantino se envergonhasse, mas isso não acontece porque ele simplesmente é muito cara de pau. O ritmo frenético dos diálogos gritados, o excesso de palavras obscenas e a trilha surf music desde o momento crucial dos créditos – sem falar nos personagens malucos interagindo em situações estranhas – são o copyright americano de Waters. Mas hoje não se fala mais de copyright, e, de uma forma ou de outra, ainda bem que existe alguém com boas influências e bons contatos no cinema de Holywood. E não que ele nunca tenha assumido o que realmente é: um interessado atendente de videolocadora… e o que dizer de nós, bons e interessados baixadores de filme do torrent? nos faltam esses tais bons contatos, ou somos por demais preguiçosos, mesquinhos, menores?…

00:38

21:52. Em Hardware ocorre uma economia de cenário, mas isso não tira o ritmo do filme em momento nenhum. Em verdade o voyeurismo, a sensação de perigo constante e o enclausuramento dos personagens se torna mais apreciável e é bem relativizado pela edição com flashes abruptos e trilha industrial. E eu nunca vi uma atriz melhor pra gritar e fugir desde Texas Chainsaw… em outros domínios, Hardware supera o Terminator de Cameron por muitas léguas. Um reina no asfalto, o outro nas dunas.

23:53. Hora de abandonar o barco. Escreveria mais, talvez.

Saul Mendez para o gore Bahia, 04, 05 e 06 de Agosto de 2010.

Triângulos, Cubos e Godard [Big Post]

Brainies.


Cinema fantástico sutil e bem realizado com poucos recursos e pouco apelo sexual, bizarro ou violento. É, provavelmente, a pior estratégia comercial possível, pois os apelos sensoriais são deixados quase todos de lado e se valoriza principalmente o raciocínio. Não é difícil chegar à conclusão de que o raciocínio é a habilidade humana menos empregada – e que o ato de pensar é provavelmente o mais ridicularizado e demodé, e isso vem muito antes de Chiclete com Banana passar a representar uma banda de axé e não mais uma ótima HQ.

Simplesmente, pensar não é a preferência. Ninguém quer ser considerado burro, então ninguem quer ver um filme repleto de pancadaria non-sense sem nenhuma trama minimamente interessante ou um diálogozinho complementar – mas para essa satisfeita maioria que consome Jerry Bruckheimer, o minimamente interessante basta e além disso o esforço pessoal para a compreensão e posterior deleite de uma obra é muito cansativo. A resposta é apertar o stop e partir pra próxima.

Dentro dessa linha que prioriza o raciocínio, adquiri uma certa estima pelo Triangle de Christopher Smith, que é um diretor muito bom naquilo que faz; e o Cubo de Vincenzo Natali é, para mim, mais do que aparenta inicialmente, também um filme que prioriza o raciocínio. Em suas semelhanças, temos um financiamento bastante restrito e a necessidade de tornar um material que poderia ser grande em um material feito com o que se tem às mãos. No caso de Cubo, a coisa é mais pesada: filmado em um único cenário, se desenvolve uma trama onde a imaginação estimulada na mente do espectador tem extrema importância para que o filme cumpra sua função – na tentativa complexa de ampliar um espaço virtual onde, na verdade, o que se observa na tela a todo momento é o mesmo ambiente.

Em Triangle se possui um pouco mais de ambientes para a ação, porém o problema é conseguir transmitir com precisão uma relação espaço-temporal complexa. Ambos os filmes, Triangle e Cubo, também se assemelham na temática FC: enquanto um trabalha com uma pessoa que tem suas escolhas dificultadas pelas adversidades impostas no famoso “triângulo das bermudas”, o outro trabalha com um grupo de pessoas que acorda certo dia dentro dentro de uma estranha sala quadrada e fica também, à sua maneira, preso pelas adversidades impostas pelo ambiente. Em ambos os filmes se desenvolve um clima de mistério digno do cinema fantástico, e disso se resume a necessidade de um maior envolvimento e raciocínio por parte do espectador.

Por se tratarem de filmes realizados com relativamente poucos dólares e, ainda assim, se aventurarem em obras acima da média e que priorizam o desenvolvimento de uma boa premissa por caminhos não-convencionais, são dignos de relevância, cada um à sua maneira.

Curtindo um curta (por essa linha).

“Era 24:17 quando cheguei ao subúrbio de Alphaville”

O curta de Roberto Cotta intitulado “Maldito Ladrão de Memórias” é resultado de um projeto de filme colaborativo do qual participei no ano passado e que por fim foi apresentado como trabalho de conclusão de curso na graduação de comunicação social da UESC, além de ter sido exibido no Short Film Corner no festival de Cannes 2010. O curta pode ser retratado como uma experiência em cinema fantástico, pelo menos em sua temática. Temos a ficção científica e o mistério em torno de Dr. K, o suposto organizador de leilões onde são vendidas lembranças dos mais diversos indivíduos, que uma vez “inseridas” agem como uma espécie de droga, causando o prazer e também o vício. A abordagem procura misturar caricaturas próprias de um noir com as também caricatas figuras e características culturais brazucas.

From right to left...

Ainda, o que nos lembra principalmente a mistura de ficção científica com noir é o filme Alphaville, de Jean-Luc Godard – e a influência deste diretor vem à mente não apenas na narrativa balbuciante do personagem principal, não apenas em seus modos rudes e toda a caracterização própria do gênero, como também na habilidade de ambos os diretores no que tange à composição das imagens. Aqui ressalto (imagem acima) a composição “espelhada” de Godard em Le Mépris, e a mesma perspectiva (que acredito não ter sido copiada, mas sim inconscientemente realizada e digna de quem possui um bom olho) em “Maldito…”. Além dessa, outras escolhas no enquadramento e sequência são muito bem realizadas, ressaltando o momento em que o personagem principal caminha pensativo pelas ruas da cidade (imagens abaixo):

Isso, meu filho.

Vai lá pelo cantinho.

Enfeita essa paisagem.

Percebidas essas qualidades, no entanto, é necessário afirmar que o maior incômodo ao longo dos quase 30min do espetáculo é, na verdade, a falta de incômodo. Enquanto as composições são bem planejadas, os enquadramentos soberbos, a câmera em si não tem vida – o que diverge do tom de Godard em Alphaville, cuja câmera impaciente segue a ação de esquerda a direita, para o infinito e além. A imparcialidade e rigidez da câmera se une à mesma imparcialidade e rigidez da montagem. Isso ao menos seria uma opção estética de “quebra de tom”, caso se tratasse de uma obra onde a ação é realizada pela física dos personagens em cena; no entanto o roteiro é focado principalmente no diálogo, o que acaba gerando um “mono-tom” que não deixa de ser percebido seja pela circularidade da temática abordada nos diálogos, seja pelos cenários restritos, o que, em quase 30min gera uma certa ansiedade.

Ao falar de filmes inteligentes, filmes que privilegiam o raciocínio, facilmente percebo uma ligação com a estrutura de “Maldito Ladrão de Memórias”, pois se trata de um filme completamente cerebral, que peca justamente na falta de uma relação mais “física” seja entre os personagens na narrativa, seja entre  o diretor e o meio. Embora com uma direção habilidosa e consciente, dotada de um olhar visual artístico incontestável, Roberto Cotta “pensa” a câmera; ele ainda não está fazendo sexo com a câmera, ele ainda não está lambendo os orifícios da fita miniDV e mastigando o rolo de filme. Neste “Maldito…”, ele não chegou a copular com a obra – o resultado é, portanto, sem gozo.

O presente curta permanece, talvez pelo processo bastante “estruturativo” ou, digamos, “calculista” do projeto proposto como um filme colaborativo, muito semelhante à forma de agir de uma mulher que esfrega a buceta na nossa cara, mas avisa: “só depois do casamento!”. Ficamos com o pau na mão, mas é inegável o prazer de ter um full frontal na beirada do nariz.

Certamente boa parte dessa sensação fique também por conta da própria atuação, além de outros fatores que são um problema de toda e qualquer produção realizada com a dependência extrema do equipamento e da disponibilidade de horários na instituição. O tempero que causa um diferencial vem de fora – o incrível Alex Francis, que interpreta Parombal com um misto de insanidade e expressões faciais dignas de um Vincent Price.

Alex Francis e suas mil faces, um deleite para as produções audiovisuais!

Últimas (e práticas) considerações Sobre o “Maldito Ladrão de Memórias” (ou simplesmente Maldito Dr. K)

Se, no entanto, o tom constante gerado na obra acaba se tornando uma estética do todo, esse clima é quebrado no pior momento possível: assim como meu amigo Leandro Afonso, concordo completamente que o final é totalmente desnecessário, além de extremamente esmiuçado em explicações na narrativa em off (o que retira do espectador a importante função de pensar, própria do roteiro extremamente cerebral). A impressão que ficou foi a mesma da versão de Blade Runner do (hoje detestável) Ridley Scott que foi aos cinemas em 1982; simplesmente arrancando fora aquele infeliz “final feliz”, encerrando por fim com o fechar das portas do elevador e deixando começar de vez os créditos ao som de Vangelis, o filme cresce muitos metros em consistência e em profundidade. Essa foi a primeira coisa a ser feita para a versão do diretor, já que aquele finalzinho mimimi tinha sido forçado pela produtora. Não é o caso de “Maldito…”, mas qual terá sido o caso enfim…? minha perspectiva para o final com suas explicações desnecessárias é que o mesmo tenha sido planejado talvez para “tapar alguns buracos”, que seriam 1- mostrar o leilão de memórias, 2- dar algum sentido maior à presença do personagem Osório, que fica à margem durante muito tempo no roteiro e 3- inserir uma imagem feminina pra dar um toque feromonial no meio de tanto homem discutindo cafés e Pitus. De qualquer forma, seria o caso de pensar, posteriormente, uma versão 2.0 do curta.

A trilha, embora bem realizada, procura seguir o ritmo do que está na tela, contribuindo para o mesmo tom. É o trabalho de quem conduz uma trilha, normalmente, mas não era o que a obra necessitava. Talvez um toque surpreendente mesmo em momentos pacíficos poderia quebrar um pouco com o ritmo, a exemplo do que a trilha do próprio Alphaville realiza -  enquanto o detetive caminha pensativo em seus murmúrios narrativos, a trilha explode em ação tresloucada. Porém a trilha não constitui um problema exatamente, já que ela se encaixa perfeitamente ao curta e é muito bem executada. Tinha o potencial, no entanto, de contribuir com a falha maior que citei.

Cenas de "Vincent Vega Morre Cagando"

Ainda, me vem à mente que, além da trilha original, não faria mal uma faixa musical em algum fragmento que pudesse dividir o ritmo narrativo dos longos 30min com um momento diferenciado, um Allegro. Quem sabe, mostrar o tal “processo de transmissão de memórias” que tanto circunda os diálogos e os pensamentos do detetive Gomide não fosse de todo mal – o que provavelmente nos renderia uma legal sequência audiovisual, à semelhança daquela cravada automobilística de heroina em “Vincent Vega Morre Cagando”, vulgo Pulp Fiction.

Quanto à CG, só tenho enormes elogios para a abertura e encerramento, que ficaram profissionais e coerentes com tudo (inclusive é um trabalho invejável). Mas a CG do tiro (ops, spoiler! adoro!) não é de fácil absorção, a não ser que o efeito possa ser, também, colocado em preto e branco como o resto das imagens. Porém, como a estética geral da obra não condiz, acredito que a preferência seria algo mais sutil, ao invés de CG.

Apesar das potencialidades (pois não são exatamente falhas mas possibilidades) ressaltadas, ao todo é uma obra corajosa, que desenvolve bem os diálogos no roteiro, a composição visual na tela, a estética uniforme e até mesmo a direção dos atores (desconsiderando o já comum amadorismo dos mesmos e alguns silencios perigosos, percebem-se também momentos de bom entrosamento entre os atores “da casa”. Alex Francis então, é um caso à parte); o curta comprova não só uma habilidade do diretor mas também, devido às circunstâncias diretamente ligadas a um TCC, a importante “voz de respeito” e “peito de pombo” que alguns precisam impor em ordem de fazer aquilo que querem quando seu trabalho está atrelado às diversas barreiras (diretas e indiretas) institucionais. É um curta que mostra uma qualidade muito superior àquela que se tem visto na UESC desde sempre, o que por si só é um mérito; quanto à distribuição, sem palavras. Se decidir desenvolver um roteiro cerebral de cunho fantástico é “botar a cara a tapa”, enviar o vídeo para o festival de Cannes é mais ainda. Por essas e outras, o trabalho é bastante satisfatório e assisti-lo é um ato (mental) de prazer.

Todo e qualquer vídeo nasce sempre com a perspectiva de melhoras e com muitos dedos pra apontar aqui e ali os buracos e as possibilidades de enfeite. De qualquer detalhe que poderia ser ressaltado para o desenvolvimento das futuras e promissoras produções do diretor, eu digo: jogue o tripé fora e FÔDA a câmera, que tenho plena certeza de que o resultado mudará de ótimo para excelente, e o prazer de assistir a obra será para o espectador tanto mental quanto carnal.  A ação física precisa existir com mais constância – se não no que a câmera capta, no que a câmera faz. O caminho é esse, e você está caminhando nele (poucos conseguem botar o pé no asfalto). Mas pra deixar marca no chão, agora tem que subir na Harley Davidson e cantar com os pneus. Aproveitando a deixa, e um tanto atrasado, R.I.P. Dennis Hopper!

O Maldito Ladrão de Memórias (2009) from Roberto Cotta on Vimeo.

Aos interessados, assistam o curta, comentem e divulguem!

Saul Mendez para o Gore Bahia, 30/06/2010

Uma aula com Mr. Dieter Laser

Nosso anfitrião.

A técnica da indústria é muito simples quando se trata de deglutir, assimilar e defecar a estética “indie”. Durante a [quase] hora e meia de A Centopéia Humana o que os olhos experientes mais reconhecerão é a total esperteza do diretor Tom Six.

Se trata de um horror fantástico com os pés fincados no biológico, mas não devemos esperar qualquer substância além da história em si. Os conceitos subentendidos dignos de um filme de Romero, Cronenberg e tantos outros mestres não constam aqui, mas nem tudo está perdido: um conceito mais amplo, englobando a indústria cinematográfica como um todo nesta transição de décadas, emerge. “Alimente-a!”, grita o Dr. Heiter, interpretado pelo ossudo Dieter Laser. A personagem engolindo merda, nesse momento, é um reflexo do espectador.

Vamos ao ponto de partida. Não existe nada de chocante no filme de Tom Six, não existe escatologia, não há sangue bastante, não há decomposição suficiente – em verdade, o filme é tão limpo quanto uma sala de cirurgia. Abrem-se as portas para um horror psicológico dentro de um conceito fantástico demais, o que não é de todo desconexo da uma realidade presente nas produções cinematográficas hoje. Quando vemos Batman e o Homem de Ferro tomando remédio pra depressão, discutindo assuntos sérios de negócio, se embebedando e, enfim, invadindo da forma mais real possível o cenário urbano, enquanto o Coringa é um fumador de crack com a maquiagem derretendo no rosto, não podemos reclamar ao ver o Dr. Heiter costurando bocas com cus.

à esquerda, o espectador; à direita, a indústria cinematográfica

Ainda, a estética presente em muitas das seqüências se coloca dentro das artimanhas “indies” de gente como Jason Reitman. O que dizer então da abertura? Uma participação especial de Gus Van Sant ou uma mimese necessária hoje em dia para que o seu filme venda a um público que se diz “alternativo”?

Partindo-se da lógica e aceitável “máscara de realidade” colocada nas obras fantásticas nestes tempos, percebe-se que embora as portas estejam abertas para o horror psicológico em A Centopéia Humana, nada passa através delas. As portas ficam abertas, esperando. O Super-cine estaria também esperando, na Rede Globo, não fosse pela premissa. Três pessoas costuradas, boca-cu, boca-cu. O choque não passa disso, e o interesse despertado pelo filme esbarra na impossibilidade de tornar a obra melhor que a idéia.

A provável pena ou afetação proveniente de ver os personagens em uma situação decadente como a colocada perde qualquer poder além do imagético quando simplesmente não sabemos nada sobre esses personagens. Mal se deixa claro que as duas garotas capturadas são amigas e turistas em busca de diversão pela Europa; que o cara gordo dirige um caminhão, e que o japonês… bem, do japonês só se sabe que ele possui uma tatuagem do coelhinho da playboy. Estas mesmas definições que coloquei aqui são as apresentadas no filme, nada além disso. Não há uma construção consistente desses personagens, e, portanto, o considerável final (o meio sempre sofre mais, hein, Mr. Laser?) perde sua força.

O próprio Dieter, cuja presença imponente tira o sono causado pela deprimente atuação das garotinhas juvenis, só consegue inspirar desconforto pela própria carcaça que Deus lhe deu, já que as chances de falar são poucas e o personagem é mais um vazio que pode ser descrito como “o aposentado cirurgião separador de siameses”. A isso, pelo menos, se acrescenta que ele não gosta de gente, não se alimenta corretamente, tem problemas de insônia e perdeu seus 3 rottweillers queridos de uma só vez. É, provavelmente, o personagem mais bem construído do filme (sendo otimista) – ainda assim, não se gastam falas para isso. A imposição imagética do medo, neste caso, se assemelha ao aplicado no caso do Drácula intepretado por Bela Lugosi. Imagem forte, conteúdo de menos.

Mas, assim como Tod Browning se aprimorou chegando ao maravilhoso Freaks, quem sabe não venha a ocorrer o mesmo com Tom Six.

mantendo o espectador com o olho grudado na tela.

Ainda assim, pode-se dizer que A Centopéia Humana, antes de descambar para a síndrome de seriado policial, é um filme consideravelmente convincente e bem realizado no que tange à edição, à construção de cenas… tudo isso na parte visual. É um filme da fácil “assistibilidade” e fica MUITO claro que alguém precisa melhorar MUITO na escrita para que boas premissas não sejam, mais uma vez, convertidas em um resultado meramente “assistível”.

Voltando aos primórdios desta conversa, e tendo passado pela mimese da estética “indie”, pela opção de fazer o filme “limpinho” como uma sala de cirurgia e por essa decadência policial que citei no final da história, digamos que quem coloca a boca no cu dos outros somos nós, os espectadores. A técnica muito chula de adaptar uma boa idéia a tudo que possa agradar faz das produções um desperdício e de nós uns grandes engolidores de merda. Aplaudir bons resultados de produtoras independentes, assim como de diretores novatos, se tornou um grande perigo: logo surgem milhares de filmes tangíveis-de-ser-bons que se apóiam somente em copiar estilos aplaudidos ou em se aproveitar do nome de diretores elogiados enquanto o trabalho dos mesmos é picotado e censurado em todos os níveis possíveis.

Assim, a máquina de moer carne consegue por fim destruir tudo que há de bom que venha de fora do seu próprio círculo. Vejam o Alexandre Aja aí agora, com Piranha 3D.

Triste.

Saul Mendez para o Gore Bahia 21/06/2010

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