Divine, Richard Stanley e outras questões.

22.19

21:11. Escrevo tentando expressar a beleza do Pink Flamingos de John Waters, mas não tem beleza nenhuma naquilo. O filme é feio, e como apologia ao feio é uma das coisas mais feias e legais que alguem pode assistir. Não vou diminuir dizendo que é bonito não. É feio mesmo, e a questão é que quando o mar é bonito, alguma merda tem que boiar e se fazer ver.

21:23. Devo acrescentar alguns detalhes. Colocar o ator pra comer cocô de cachorro na frente da câmera é uma coisa cruel e legal de fazer. Aprecio muito, e provavelmente me apaixonei por Park Chan-Wook ao saber que ele botou o ator de Oldboy pra morder realmente aquele polvo. VIVO. Bons cineastas exploram (literalmente) os atores. Essa é a escolinha do Hitchcock, onde todos os atores são mera boiada.

21:13. Nisso de refletir, penso que já chega de pobrismo nas artes nacionais, e sou chato repetindo isso pra muita gente. Mas pelo caminho inverso (ou nem tanto), se é pra filmar pobreza, chega de ser com a trilha do consultório do dentista e chega de usar essas lentes de Sebastião Salgado. Existe beleza no descascado da parede, mas o foco pode ser muito mais Divine.

22.21

21:17. E o Richard Stanley fez um processo retrógrado de artista do vermelho arenoso pra antropólogo documentarista. Quem assistiu Hardware sabe que é a pérola ocidental cyberpunk dos anos 90, provavelmente a única que vi semelhante ao Tetsuo do Shinya Tsukamoto (que é dos 80 mas tão moderno quanto). Ainda assim, como não assisti os documentários do cara não tenho como saber se ele privilegiou o gênero “documentário” com uma visão mais deturpada, ou se ele deturpou sua própria visão com uma grande angular política.

21:35. O interessante é que em Dust devil (versão do diretor) se observam as nuances boas de  importar a cultura local pro contexto ficcional, no caminho inverso do que discuto acima. A visão documental relativa à cultura africana invade o filme e por vezes afeta até os rumos narrativos e a própria linguagem, que é muito mais simbólica que aquela vista em muitos filmes do gênero. Não cito Lynch pra exemplificar, mas sim o Lynch antes de Lynch: Artaud.

00:10

23:16. Logo abaixo: é o momento em que minorizo Tarantino. Muito provavelmente eu vou me contradizer em outras ocasiões, já que este é um assunto conturbado, mas talvez seja apenas a necessidade de expressar a maestria de Waters.

21:43. Pink Flamingos deveria fazer com que Tarantino se envergonhasse, mas isso não acontece porque ele simplesmente é muito cara de pau. O ritmo frenético dos diálogos gritados, o excesso de palavras obscenas e a trilha surf music desde o momento crucial dos créditos – sem falar nos personagens malucos interagindo em situações estranhas – são o copyright americano de Waters. Mas hoje não se fala mais de copyright, e, de uma forma ou de outra, ainda bem que existe alguém com boas influências e bons contatos no cinema de Holywood. E não que ele nunca tenha assumido o que realmente é: um interessado atendente de videolocadora… e o que dizer de nós, bons e interessados baixadores de filme do torrent? nos faltam esses tais bons contatos, ou somos por demais preguiçosos, mesquinhos, menores?…

00:38

21:52. Em Hardware ocorre uma economia de cenário, mas isso não tira o ritmo do filme em momento nenhum. Em verdade o voyeurismo, a sensação de perigo constante e o enclausuramento dos personagens se torna mais apreciável e é bem relativizado pela edição com flashes abruptos e trilha industrial. E eu nunca vi uma atriz melhor pra gritar e fugir desde Texas Chainsaw… em outros domínios, Hardware supera o Terminator de Cameron por muitas léguas. Um reina no asfalto, o outro nas dunas.

23:53. Hora de abandonar o barco. Escreveria mais, talvez.

Saul Mendez para o gore Bahia, 04, 05 e 06 de Agosto de 2010.

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