MIDNIGHT SPECIAL: O Quarteto Fantástico de Jeff Nichols.

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Veja o trailer: http://www.youtube.com/watch?v=_O754EYVBhE

Quando John Byrne criou o Quarteto Fantástico, ele criou algo que ia além dos super-heróis: ele criou uma série de quadrinhos sci-fi como a Marvel nunca tinha concebido antes. E mais: criou uma série que encadeava todos os acontecimentos com consequências reais para o mundo e seus personagens, de uma forma tão sequencial e tão plausível que contrastavam com as demais séries. Com isso, a carga dramática aumentava e todo conflito era uma possibilidade de caos naquele universo; sendo assim, os personagens foram desenvolvidos de uma maneira nunca antes vista. Observamos em muitos momentos os personagens que simplesmente não querem conflito, e que valorizam a vida acima de qualquer confronto. Galactus que o diga.

Infelizmente esse ainda não foi o quarteto que conseguimos assistir nos cinemas. Mas ainda é um tipo de sci-fi que encontramos, não apenas na clássica era de Spielberg – “Destino Especial” (Midnight Special, 2016), que chegou ao Brasil no mês passado, cumpre bem essa função de aplicar a devida carga emocional dos personagens em uma história de fantasia altamente implausível. Não é à toa que alguns críticos taxaram o filme de “excessivamente inspirado em E.T.”, o que não é um crime e já foi, de certa forma, trabalhado também em outros filmes hoje esquecidos como Energia Pura (Powder, 1995), filmaço do Victor Salva com o “mosca” Jeff Goldblum. Devemos lembrar que o drama na ficção científica não foi criado por Spielberg tanto quanto por John Byrne, e, antes mesmo, formatou-se na própria literatura do gênero – não são raros os contos extremamente tocantes escritos por Isaac Asimov, um de seus representantes mais prolíficos.

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Em “Destino Especial” (Que chegou ao país disponível, por enquanto, apenas digitalmente via Looke, CineSKY, iTunes Store, Google Play, PlayStation Store, XBOX Store, entre outros) O diretor Jeff Nichols realiza o que consegue muito bem em seus filmes anteriores “Amor bandido” (Mud, 2012) e “O Abrigo” (Take Shelter, 2011) – ambos disponíveis no Netflix -, principalmente no que tange a tirar o suco da laranja, ou a atuação dos atores. E nesta história de um pai que foge das forças nacionais do governo, do FBI e de uma seita religiosa, todos interessados em seu filho que aparentemente possui poderes mutantes, atuação é o mínimo pra coisa funcionar. E, assim, Michael Shannon brilha mais uma vez, em uma atuação minimalista de um homem com poucas palavras e muita perseverança; Joel Edgerton como um coadjuvante que aparece pouco mas o bastante, brilha também; e até Kirsten Dunst, que não é dada a grandes momentos, consegue demonstrar mais sentimento que o comum. Adam Driver, como um representante das forças de defesa nacional, está bem melhor do que conseguiram aproveitá-lo em “Star Wars – O Despertar da Força”. E aproveitamento é a palavra certa: A arte de Nichols é saber aproveitar muito bem o que tem em mãos.

Com um dinheiro relativamente pequeno para a produção, ele consegue realizar algumas sequências de ação pontuais mais significativas, como aquelas em “Onde os Fracos Não Tem Vez” dos irmãos Coen. O filme passa por longos momentos de respiro, e retoma em um baque, sob a câmera de poderosas lentes Panavision. O resultado é uma beleza em 35mm que, no entanto, passa na trave por sua longa duração e por deixar os espectadores sem muitas informações além da própria ligação entre os personagens e o carisma de sua direção, que nos fazem assisti-lo. Uma história de fé e família (um pai, um filho, uma mãe e um quase tio); um road movie do quarteto fantástico; um misterioso filme de conspiração que envolve governo e extraterrestres; a história de um profeta ou salvador, perseguido por ignorantes. Mais do que isso, uma batida equilibrada com toques de drama, ação e ficção científica, num remix à moda das produções asiáticas – o que funcionou o bastante para garantir a entrada na lista de concorrentes ao Urso de Ouro no Festival de Berlim 2016.

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O filme tem momentos de brilho e derrapadas consideráveis, mas consegue se sobressair do esquema pouco criativo de refilmagens e sequências de grandes franquias, trazendo um ar novo para as produções americanas e a possibilidade de ver Nichols trabalhando no grande circuito, o que por si já vale conferir. No mínimo, se tornará um daqueles filmes memoráveis, como muitos que mantemos na lembrança e que não são, necessariamente, dos melhores. “O Abrigo” continua sendo o melhor tiro do diretor no universo da ficção – sessão obrigatória no Netflix, pra quem possui uma conta lá – mas “Destino Especial”, embora seja um diamante bruto, vale cada centavo do aluguel, e se torna mais um filme no currículo do diretor a flertar direta e/ou indiretamente com o cinema de ficção e fantasia tão caro aos fãs do horror.

Saul Mendez para o Gore Bahia, 20/09/2016

 

Novo Bruxa de Blair: o que esperar e o que não esperar.

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Com o sucesso interminável de filmes que vieram na cola da ideia do primeiro Bruxa de Blair (REC, Cloverfield, além de milhares de produções menores), e o som do dinheiro caindo na conta de produções nessa linha que viraram marca (ATIVIDADE PARANORMAL), o diretor do original, Eduardo Sanchez e seu parceiro Daniel Myrick chegaram pra Lionsgate e colocaram na mesa uma proposta irrecusável: um novo filme para a franquia, um recomeço, injetar sangue novo. O filme veio sendo produzido em segredo, sob a alcunha de “The Woods”, para ser lançado em uma campanha surpresa iniciada na Comic-Con em San Diego, o que deixou todo mundo fervilhando de expectativa. O resultado será visto nos cinemas brasileiros a partir de amanhã. O que esperar? O que não esperar? Veremos.

A história deste novo filme reenquadra sua história à linha temporal do primeiro, sendo o irmão da personagem principal de Blair Witch Project que, desta vez, irá se aventurar pela floresta para encontrar a irmã que ele acredita estar viva após 17 anos. A escolha do diretor e do roteirista (Adam Wingard e Simon Barrett, a eficiente dupla por trás de Você é o Próximo – You’re Next, além de dois curtas em V/H/S , V/H/S 2 e também em ABC da Morte) é exata e planejada para um tiro mortal. No entanto, as críticas que circulam falam de um resultado que ou revigora a franquia ou acaba por demonstrar o quanto os filmes de “found footage” estão desgastados, funcionando como um “canto do cisne”, a última pá de terra do formato.

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A principal crítica é quanto à escolha da dupla de seguir uma rota segura demais: se ater aos moldes estruturais do roteiro do primeiro filme, Blair Witch Project. Para muitos, apesar de acrescentar um ou outro elemento ao universo da história, e talvez até inserir um toque pessoal na produção, o filme parece muito uma refilmagem do original feita para a nova geração. Isso reduziria o efeito geral que o filme deveria proporcionar aos espectadores que já assistiram ao primeiro, o que já vem carregado de todo um problema natural ao formato. Explico: um dos elementos que mais assustava no original é que, na época, o found-footage era algo novo. No tempo em que eu assisti a esse filme, aluguei em VHS e lembro bem do efeito. Um pseudo-documentário (mockumentary) de uma hora para a outra virava uma definição do horror captado em câmeras caseiras. Era como um trem-fantasma. A campanha do filme, é claro, que o vendia como “baseado em fatos reais”, ajudava mais ainda. Hoje em dia essa campanha não funciona, todos conhecem o formato e, portanto, nada é mais tão assustador assim. São críticas compreensíveis.

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Por outro lado, assim como observamos em Pânico 4 (Scream 4), é muito interessante observar o uso de novas tecnologias de vídeo como um diferencial crucial entre um filme e outro, apesar das semelhanças de roteiro. Drones, câmeras de GPS conectadas à orelha e mais uma série de parafernalhas são citadas pelos sites internacionais, enquanto o IMDB ainda não apresenta uma lista exata dos detalhes técnicos do filme. Certamente, o uso desses brinquedinhos são um atrativo moderno e devem agradar bastante, proporcionando novas soluções para o formato.

No mais, é garantido que os últimos 20 minutos do filme são pura adrenalina de arrepiar, o que deve agradar aos puristas e à nova geração, e que, sim, desta vez veremos a cara de Elly Kedward, a famigerada bruxa de Blair, após 17 anos de espera.

 Saul Mendez para o Gore Bahia, 14/09/2016

Na luz ou no escuro, sobre a água ou abaixo.

A safra dos últimos anos – enquanto este espaço do mundo gore ficou escondido, oprimido por uma nação de insanidades politicamente alçadas como primordialmente corretas – trouxe alguns clássicos instantâneos e alguns filmes muito bons que não abordei. O silêncio permeou este pequeno mas nunca humilde local de saúde e beleza. Mas, como aquilo que surge da escuridão ou que emerge repentinamente das águas, o gore está de volta. E há muito para matar, muito para dissecar e fazer sangrar na tela deste tablet onde escrevo, em letras digitalmente mal traçadas.

Eu adoraria estar escrevendo sobre BONE TOMAHAWK, mas fica pra outro momento. Por agora vamos falar de Quando as Luzes se Apagam (Lights Out) e Águas Rasas (The Shallows), dois representantes minimamente relevantes a dar as caras nos lançamentos de cinema no país. Ah, o país! Sempre o país! Um dia ele muda.

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Águas Rasas define um excelente trabalho de direção de Jaume Collet-Serra, diretor do excelente A Órfã (Orphan) e do também legal A Casa de Cera (House of Wax), além de uns filmes de ação aí com um tal de Liam Neeson. O roteiro de Anthony Jaswinski é fenomenal e a preocupação com os aspectos técnicos é literalmente visível. O uso da GoPro e a CG suave usada para mostrar a comunicação digital, além do 3D para adaptar o rosto de Blake Lively à cabeça de sua dublê, saltam aos olhos assim como o cenário e a fotografia exuberante ressaltada pelo trabalho de poderosas câmeras ALEXA com lentes Leica Summilux. Em suma, um deleite do caralho! Sim!

Na história assistimos a um misto de Tubarão do Spielberg com Náufrago do Zemeckis, com uma personagem muito da Lara Croft do reboot de Tomb Raider, e alguma inspiração no “conto estendido” O Velho e o Mar, de Hemingway. Ou seja, tudo pra dar certo. E funciona! Aqui, além do trabalho decente de Blake Lively (que está muito além de Serena Van der Woodsen, aleluia, há tempos e cada vez com mais eficiência), os animais são os personagens de mais força. Temos um zangado tubarão branco com toda a personalidade possível, e um carismático pássaro marinho que acompanha o drama da personagem, estando ele mesmo preso a uma pedra, por estar com a asa quebrada. Momentos geniais de drama e ação nessa história minimalista de cenário menor ainda. Gore? Sim! Lindo de se ver. Altamente recomendado!

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Em Quando as Luzes se Apagam,o diretor David F. Sandberg demonstra todas as trucagens que aprendeu ao longo da realização de seus vários curtas, inclusive o próprio Lights Out que precede o longa-metragem, e já foi escalado para a direção de Anabelle 2, que vai existir (why,oh why). A australiana Teresa Palmer, no papel de final girl, demonstra um pouco de traquejo para uma atriz cuja única aparição em um filme de horror relevante antes desta tenha sido, provavelmente, como enfeite na festa da piscina em Wolf Creek (2005). A garota é bonitinha mas ordinária: tem passagem por porcarias como O Grito 2, Eu Sou o Numero 4, Meu Namorado é um Zumbi e Aprendiz de Feiticeiro da Disney. O filme não surpreende, mas traz uma boa dose de jump scares pra conquistar o publico moderno e é eficiente o bastante – como uma sequência de Premonição costuma ser, e é bem por aí que se monta o negócio. Caso se tratasse de um filme da Universal, uma atração no parque já estaria pronta. Antes eficiente assim, do que ineficiente! Tempos difíceis. A qualidade maior do filme fica, então, em sua premissa que brinca com o medo do escuro, inerente a todos os humanos, o que já se reconhecia bem em seu ótimo curta-metragem.

E agora? Emergir, mergulhar, acender as luzes ou deixar que a escuridão consuma tudo, como uma sala de cinema abandonada?… Supostamente, voltaremos, com sangue e vísceras politicamente liberados!

Saul Mendez para o Gore Bahia, 10/09/2016

Sobre Mark “Chopper” Read, Hunter S. Thompson e seus “COJONES”.

El Toe-cutter

Hoje encontrei Fear and Loathing (o livro) na estante de livros de bolso. Também encontrei um DVD de Woody Allen por 9,90. Essas coisas normalmente acontecem quando não tenho qualquer dinheiro no bolso. De qualquer forma, andei satisfazendo minha fúria consumista com 1) Greenwich Village 1963, livro que achei por 5 reais no Hiper BomPreço e que vale a pena por tratar de um dos temas que mais me agradam – contracultura 60/70 – e 2) downloads! Depois de muito tempo com o Megaupload travado em algum IP que já tinha expirado o limite da baixação, consegui sugar um filme que queria ver há algum tempo, o CHOPPER com o Eric Bana no papel de Mark Brandon Read , um bandido e assassino australiano.

Não ando muito ligado na parte técnica ultimamente (estou sem saco mesmo), então foi um tanto agradável assistir um filme só pela história e sem especificamente procurar também algo do gênero horror pra assistir (as ultimas coisas que assisti do gênero não me agradaram muito, com exceção, talvez, de CARRIERS que valeu a hora e meia – claro que estou falando dos filmes ATUAIS que andei assistindo, já que os antigos quase sempre acabam valendo).

Sobre o CHOPPER é o seguinte: é um filme que merece ser visto com a mente aberta e, provavelmente, é um filme que vai agradar mais aos homens (como de costume em tudo que eu posto no GOREBAHIA, sem preconceitos mas é bem verdade). O filme não procura redimir o personagem por nada do que faz e não faz um histórico da infância do cara, simplesmente começa com ele já preso e, ainda assim, no auge da malandragem… o roteiro segue uma linha bem cômica e estilizada na linha de Trainspotting – ainda que bem menos afetado, o que dá um outro ar. Fica claro que para o diretor Andrew Dominik (do ótimo O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford) o foco aqui não é exatamente o estilo, mas os diálogos que geram situações tensas e intrincadas e a complexidade de um personagem que se contradiz a torto e a direito.

O grande lance que atrai para o filme é que, apesar de ser uma figura reconhecida no “outro lado da moeda social”, Mark Brandon Read se tornou um escritor de best-sellers sobre seus próprios crimes. Pelo visto ele não lucra muito com as vendas, já que o país proíbe que “criminosos” lucrem royalties – os mesmos são recolhidos como impostos -, ou seja, vai lá saber quem é mais criminoso nessa história.

El Ear-cutter

O filme aplica sua dose de violência logo de início, onde se concentram as cenas mais pesadas do filme todo – ou seja, quem passar por aí curtindo pode ficar um pouco menos sorridente mais pro final, e quem passar por aí chocado eu duvido que se interesse pelo resto; mas o fato é que o filme chega a um fundo de verdade interessante sobre mercado, sociedade, e a vida em si. Algo mais ou menos assim: existem tantas formas de viver quanto você quiser, o risco é só seu, e às vezes as opções que não estão exatamente lá podem ser garimpadas, se você tiver coragem pra isso.

Pra um bandido que, de acordo com o filme (que se baseia nos livros do próprio), seguiu essa vida por opção e não se arrepende em nada, pois sua visão era apenas a de um “operário em um campo de trabalho” – sair para um OUTRO campo de trabalho TOTALMENTE inverso (o de escritor), é algo que demanda muita coragem. Afinal, sendo já consagrado como uma pessoa deturpada (quem se interessaria em obter qualquer tipo de conhecimento escrito que advém de um suposto derrotado social?), e ainda assim conseguir sucesso em sua empreitada é, no mínimo, uma lição que diz: “quem tem culhões alcança o que quer”. Embora essa lição não venha exatamente do tipo de pessoa que se espera. O filme tem, então, uma perspectiva quase de auto-ajuda? Eu diria que tem, sim. E se auto-ajuda fosse escrota desse jeito eu seria o primeiro a estar na fila pra comprar os livros de Augusto Cury, mas esse aí é limpinho demais, certinho demais, e sinceramente não deve ter passado por muito nessa vida (ganhando o que consegue tirar por uma hora de palestra).

A dose de coragem transmitida por Mark “Chopper” é também extremamente mórbida e advém de uma espécie de desprezo perante a vida. A mesma despreocupação com que ele desfere golpes de faca na cara de um inimigo de cadeia e, logo após, pede desculpas e oferece um cigarro enquanto o cara se esvai em sangue, é a despreocupação que observamos enquanto ele mesmo LEVA facadas no tórax, e, entre um intervalo de lâmina e outro, tenta conversar com o agressor: o abraça, pede para que pare com isso e façam as pazes. Ele sublima a dor e a lógica mortal da situação. Quando preciso, corta as orelhas para ser transferido de seção. O colega de cela escolhido pra “passar a navalha” na cartilagem treme feito bambu, enquanto CHOPPER simplesmente diz: “corte logo, que frescura!! Arranque fora!!”. O que deve ser feito, deve ser feito.

El Dope-eater

Então, hoje quando vi o Fear and Loathing na prateleira da livraria me lembrei do Hunter Thompson e associei o tipo de coragem insana do Chopper ao maníaco do jornalismo gonzo. É uma coragem que admira pelo masoquismo – embora no caso do Hunter não exista uma ligação com o corpo ou com uma dor física. É uma questão apenas social onde ele É um jornalista ainda que NÃO QUEIRA SER um jornalista (conforme se convenciona, ou oferecendo o que se espera de um). Ele constantemente põe em risco sua própria carreira com atos (ainda que muitas vezes inconscientes) que acabam sendo prejudiciais mais para si mesmo do que para qualquer instituição da sociedade contra a qual irrompe. A “inconsciência” que eu cito, inclusive, é claramente uma inconsciência desejada e procurada (através de todo tipo de droga possível), pois para o seu “grande ato” ela deve ser dizimada. Algo como cortar as próprias orelhas. Por isso mesmo o capitulo inicial do livro (e uma sequência maravilhosamente bem dirigida por Terry Gilliam na adaptação cinematográfica)  já demonstra a perspectiva do autor: contratado para cobrir uma corrida no deserto em Las Vegas, além de papel e uma máquina de escrever, o mesmo se equipa com uma mala onde carrega maconha, cocaína, LSD e sabe-se lá quantas coisas mais. E a preocupação do mesmo é se isso tudo vai ser bastante pra cumprir com o trabalho. Certamente, o trabalho vai além do que foi pedido. Acho isso legal, um tanto pró-ativo e, se os livros de auto-ajuda empresarial que versam sobre pró-atividade fossem escritos pelo Hunter, eu também compraria.

Saul Mendez para o Gore Bahia,
07/06/2011 

Liam Neeson estava lá.

 

No cantinho, de boa.

Enquanto a feijoada e o churrasco rolavam e os primos encachaçados da minha mãe jogavam baralho, a Rede Globo de Televisão transmitia na sessão da tarde um filme fantástico muito foda com um ciclope e um grupo composto de ladrões, um mago, um velho sábio e por aí vai, seguindo bem aquela linha Dungeons and Dragons que fervia em torno da minha infância. Algum idiota devia estar tentando me botar pra provar cerveja – no auge dos meus sete anos de idade – e alguma prima chata devia estar querendo brincar e precisando de um marido pra compor a casinha, mas eu tava mesmo era vidrado em uma sequência louca que se passava em uma espécie de pântano: Areia movediça, galera chegando com armaduras negras e lasers, luta de espadas… tava tudo ali. E Liam Neeson também tava ali, no meio do elenco de KRULL, um longo e marcante filme de fantasia que bota o Lord of the Rings do Peter Jackson no chão – ainda que não chegue aos pés do Lord of th Rings literário, de onde suga estrutura e muitas passagens, como a aranha gigante da montanha que existe praticamente em uma mesma posição na timeline onde Laracna surge na obra de Tolkien. Ainda assim, que filme! Bem conduzido, continua um bom filme, pois tem aquela capacidade das boas coisas velhas que possuem o mesmo apelo a cada década que passa, vide Luluzinha e afins.

Se preparando pra falar umas verdades.

Como um Gawain esperto e sem papas na língua, Liam Neeson também está lá, em Excalibur, botando lenha na fogueira e soltando a palavra pra deixar bem claro que a carne real de Guinevere andava sendo cavalgada por outro que não o Rei Arthur. No tempo em que a espada era a lei, ainda se confiava em adaptar os bons legados da humanidade para as telas, sem Clive Owen e sem tentativas de precisão historico-científica para lendas, folclores e afins. Em um filme longo para os padrões atuais, temos a mais bem contada versão da saga arthuriana já realizada para as telas. Cenas de batalha sem Orlando Bloom; Ridley Scott longe das linhas de produção; nenhuma computação gráfica desnecessária; Cores e cenários inspirados, e fantásticas sequências de combate testa-a-testa como Lancelot vs. Arthur, Lancelot vs. Gawain, e o rápido porém não menos belo Arthur vs. Mordred. Longe de ser perfeito em muitos aspectos técnicos, mas perto do sublime ao retratar a saga completa como nenhum outro e – isto é bom – sem gerar o temido efeito Alprazolam.

Saint Hauer

Liam Neeson não estava lá: Conquista Sangrenta, do Verhoeven. Mas Rutger Hauer estava, e tão bem quanto em Blade Runner. Aliás, por que motivo o Hauer nunca despontou? Será que é porque ele nunca des(a)pontou, e o interesse maior de holywood em verdade é nos deixar tristes, com a sensação de que fomos roubados em nosso dinheiro e em nosso direito à felicidade? Título Original: Flesh + Blood. E estão os dois lá, do início ao fim, bem presentes, a carne e o sangue! Pro prazer geral dos vikings de plantão! Não arrisco dizer que tenha sido o melhor que Verhoeven já fez, mas dentre os filmes que muito amo deste diretor excepcional, este é o que mais me conquistou. E foi uma conquista sangrenta, sim. Jennifer Jason Leigh, obrigado pela nudez explicita constante e pela melhor cena de estupro  – consentido – que já assisti. Rutger Hauer, você é um deus da atuação. Poledouris, componha a trilha da minha vida. Verhoeven, me passa um pouco dessa erva que você fuma. Ela é boa.

E, Neeson, você estava no caminho certo. Pena que você não caiu também nas graças de Verhoeven… se bem que: o que é melhor, ser um ilustre desconhecido como Rutger Hauer ou fazer parte do elenco de ESQUADRÃO CLASSE A e SE BEBER NÃO CASE 2? Perguntas difíceis da vida.

Saul Mendez para o GORE BAHIA, 28/03/2011

Danny Trejo Feat. Lindsay Lohan

dia de praia em família.

Do melhor ao pior que assisti na nova tecnologia de cinema 3D até hoje, minha lista começa com Avatar e termina com Alice. Como só vi três filmes dentro desse grupo, posso revelar que o filme do meio foi a animação Como Treinar seu Dragão, que por muitos motivos se manteve a léguas de distância dos caminhos miseráveis em que prossegue Tim Burton. Mas nada melhor me esperava do que aquela que eu acreditava que seria a minha pior decepção: Piranha 3D. Não, eu não assisti em 3D – mas vou sofrer eternamente por não poder ter visto esse espetáculo. E devo me redimir: Alexandre Aja, nunca mais desconfiarei de você novamente!

O filme de Aja não só é um dos melhores filmes a ser lançado ultimamente, como que simplesmente é o melhor do mainstream de horror em muitos meses de seca. O ultimo lançamento em cinema, no gênero, foi Sorority Row (2D) e Premonição 4 (3D). Nenhum dos dois eu cheguei a assistir, mas não é preciso nem chegar perto deles pra sentir o cheiro de inferioridade.

Brook by Aja.

A primeira coisa que é um acerto no filme de Aja: a duração. Um filme extremamente curto, com seus 88 minutos de exibição que são um verdadeiro espetáculo. Espetáculo, inclusive, é a palavra certa: reconhecendo que o esperado pelos espectadores do cinema 3D é, mais do que um filme, uma experiência, Aja desce a mão com tudo e sem pena. Esse é o seu segundo acerto. E vão e vêm as mulheres nuas, com destaque para Kelly Brook e Riley Steele em uma cena que deixaria Fulci orgulhoso; queeeee zumbi vs. tubarão que nada! é aranha vs. aranha debaixo d’água e com pés de pato. É o Aja passando na frente de Tinto Brass com seus mirabolantes planos de um pornô 3D. E quando a sangueira deve rolar, os malabarismos de Tubarão 2 não chegam nem à ponta da unha do mindinho dos pés daquilo que Aja é capaz de realizar. Em meio a isso tudo, o filme consegue ser leve sem ser desleixado, e tampouco tenta se passar por sério: muito pelo contrário, se diverte com os espectadores, regurgitando até pinto mutilado em três dimensões. Não há filme melhor no momento. E, mesmo sem ter assistido na lisergia do 3D, já risquei Avatar da minha lista para garantir o devido lugar de Piranha 3D. A César o que é de César.

O sangue.

O sexo.

O interessante aqui é a moda do featuring, um estratagema do mercado holywoodiano que se observa em outros dois filmes lançados atualmente de forma muito mais explícita. Enquanto no filme de Aja temos a participação breve de Eli Roth em meio a nomes menores mas de interessante advertising como a Riley xoxota Steele (nada como piranhas em um filme sobre piranhas), em Machete de Robert Rodriguez o sistema de featuring é a grande base da campanha promocional – e em The Expendables de Stallone, não só a base para a promoção, mas a base para toda a existência do filme.

Gêmeas enfermeiras e suas psicoses ambulantes.

Machete é um dos lançamentos legais em cartaz este mês nos EUA, que perde em ritmo de diversão pra Piranha 3D mas não deixa de ser um filme de grande (baixo) nível e que merece ser assistido com a devida atenção. Digamos que é o Grindhouse pt. 2, sem a metade do Tarantino. Mas neste, Robert Rodriguez viaja menos no fantástico e na busca pelo grandiosismo, fazendo um filme um pouco mais consistente que o segmento Planeta Terror de Grindhouse. As falhas, digamos, são as mesmas encontradas em Era Uma Vez no México, mas assim como essas falhas não desmerecem o bom resultado em Era Uma Vez..., elas também não destroem as qualidades encontradas em Machete. A seqüência inicial, inclusive, é uma maravilha retrô com toques modernos de telefonia presidiária. Nunca na história do cinema uma vagina foi explorada dessa maneira. Ponto pra Robert Rodriguez.

Mudança de Hábito 3

Outro ponto vai para o sucesso que o filme obtém em, pela primeira vez, conferir um apelo feminino à figura de Michelle Rodriguez: ainda que interpretando uma personagem masculina, como de costume, a câmera de Robert R., algumas pitadas de atuação, desvios no roteiro e as escolhas do figurino revelam uma felina onde antes se observava o próprio Mike Tyson. Em meio a isso tudo, Cheech Marin brevemente como um padre maconheiro (Cheech e Chong feelings), Robert deNiro sempre muito Robert deNiro, e dois pontos altíssimos: Steven Seagal (que talvez estivesse no filme errado, ou não seria ele um potencial mercenário?) no melhor papel que já fez, e no melhor filme que já fez; e Lindsay Lohan, nua, apaixonando-se pelo hábito em uma cena hilária e surgindo fantasiada de freira pistoleira. Mais piada que isso só a cena em que ela é buscada pelo pai na boca do tráfico, em estado altamente dopado e gofando como Lindsay Lohan. E parabéns a Danny Trejo, o Machete, que não desfere quase nenhuma fala o filme inteiro – mas desfere muita facãozada, bisturizada e termômetrozada -, que vai se tornar um ícone e, ainda por cima, ganhou um beijo da Jessica Alba. Parabéns, cucaracha.

Bom logotipo, Rambo.

Já o filme de Stallone, enquanto acerta no featuring e nas doses de violência – além de se mostrar como uma espécie de retorno aos filmes de ação quase artesanais – erra na falta de fêmeas em cena. A testosterona falou mais alto e temos boas cenas de violência e gore aqui, à base de armamento pesado, mas a ambientação projetada para o filme não inclui espaço pra nenhuma mulher. Abre-se uma exceção para Gisele Itié (!), mas, mesmo que ela seja um ponto crucial para o desenvolvimento do plot, ela só funciona como estopim para a violência e não participa ativamente nem fisicamente. Quase não aparece dentro das lentes da câmera, quanto mais oferecendo um pouco de pele à mostra para os espectadores másculos. Em Machete se exploram bastante as mulheres nuas em cena, mas tudo se mantém em um nível respeitável, nos moldes americanos (leia-se não mostrar pêlos pubianos ou curvinhas vulvilineas), enquanto que em Piranha 3D a festa corre solta. Será que os bombados Stallone, Dolph Lundgren, Jason Statham, Mickey Rourke, Terry Crew… têm coração? Têm ideologias contrárias à exposição de peitinhos dançando sob o efeito da gravidade? Ou estão tão ocupados malhando ao som de “Boys are Back in Town” do Thin Lizzy? E, aproveitando a seqüência de perguntas: porque Van Damme não está neste filme?…

"Dica de atrizes e figurino, para my friend Stallone Cobra." - Alexandre Aja

Por fim, Mercenários é válido pela violência exacerbada e por reunir tanta figura do submundo dos filmes de ação, mesmo em cenas curtas e pessimamente atuadas que, no entanto, ironizam os próprios atores presentes (ex.: a seqüência da igreja, única cena em que atuam O Exterminador da Califórnia e Bruce Willis, assim como as cenas em que Jet Li sacaneia a si mesmo quanto a sua altura). O filme também é capaz de deixar os espectadores ansiando por armas de fogo que transformam um ser humano em geléia e desejando algum dia testar uma: no chefe, no vizinho, no playboyzão da esquina, na ex-namorada, por aí vai… Mas como não existe desejo maior do que filmar Kelly Brook e Riley Steele de biquíni em uma lancha, entre Stallone e Rodriguez, fique com Aja: ele nunca erra, nem nas doses de violência, nem nas doses de nudez feminina, nem no estratagema de featuring. Será que no próximo filme ele convida a hoje esquecida Tawnee Stone? Eu estou na torcida e compro o ingresso com antecedência. 3D, por favor.

Saul Mendez para o Gore Bahia, 06/09/2010

O Horror Dominará o Mundo.

Sim, eu sei o que parece.

Quando observo a quantidade de bons festivais voltados para o cinema fantástico e de horror que existem ao redor do mundo – alguns tão grandes e tão patrocinados quanto um Comic Con – eu só tenho a perceber o crescimento do nicho, neste século recém-nascido, de uma forma verdadeiramente putanesca (longe de conferir o mesmo sentido da receita de macarrão). E isto, dentro do sentido que aplico ao termo, pode ser entendido de duas formas: seja como algo literalmente, putanescamente vendido, ou como algo grandioso e benéfico. Isso sempre funciona pelos dois caminhos e depende muito de como os realizadores se utilizam da ferramenta “festival”.

Enfim, não tenho como falar mal de festivais como Fantasporto e Sitges, por exemplo, que chegam já às suas milenares edições e ainda prestigiam e vêem aquilo que ninguém quer ver. E premiam. Minha aversão à premiação como oficialização de conchavos políticos, ainda assim, não se aplica como um fator negativo capaz de reduzir a importância da existência desses eventos. E essa lista de festivais do bom cinema vai além da península Ibérica, partindo para Canadá, Japão, Austrália, Itália (claro)…

Paisagem Fantasportina.

Esses festivais e seus filhotes que anseiam por ser um reflexo perfeito do sucesso paterno compõem, de fato, a tubulação por onde escoa a produção criativa da área. A falta de festivais ocorre comumente pela falta de patrocínio, pela falta de incentivo governamental; e da falta de festivais decorre, sendo essa a tubulação principal, a problemática da distribuição – que se procura driblar hoje principalmente nos recônditos da Internet. Mas a esse assunto não interessa chegar agora, de qualquer forma.

Retornemos.

Onde eu quero chegar exatamente é à expansão do gênero horror no cinema e nas produções independentes, seja dentro de seus próprios limites narrativos quanto em suas barreiras mercadológicas. Muito provavelmente isso se deveu ao acesso gratuito por Torrent, E-mule, e seus predecessores Kazaa, Soulseek… a velharias esquecidas do cinema setentista e outras pérolas de décadas passadas. Houve uma explosão de curiosidade na geração DIY, nos entusiastas da cultura “indie”, e muito da importância dada aos filmes “B” hoje (sobre os quais já se diz, carinhosamente: “B de Bom”) advém desses jovens alienados na frente de um computador. Uma população de comportamento pouco sociável da qual não se esperaria a formação de um público para inscrição em festivais. Diriam as pesquisas. Porque, na realidade, basta tirar a limpo os números com os organizadores e patrocinadores de todos esses eventos citados lá no início. Eventos que tendem a crescer em número e grau.

Belial, é você?

Alguns desses jovens entusiastas e curiosos se tornaram músicos renomados das incursões independentes mais variadas que existem hoje no rock (se é que ainda podem ser chamadas de “rock”). E a influência do gênero horror fantástico pode ser observada em alguns de seus clipes atuais, como o já menos transmitido “Flash Delirium” do MGMT, o recém lançado “Congratulations” da mesma dupla e também o videoclipe do Yeasayer lançado hoje: “Madder Red”, que nos primeiros segundos já remete ao Basket Case do Henenlotter. Em minha juventude o mais perto disso que as produções de videoclipe chegavam – em qualidade – vinham da banda Bush do metido-a-besta Gavin Rossdale, especificamente o clipe da música “Greedy Fly”, que era praticamente um mini-filme. Na linha dos clipes de metal nem vale citar, porque muitas bandas dentro dessa sonoridade seguem, desde sempre, por essas trilhas – e é o mais lógico que fazem. Em uma comparação: não surpreende Argento dirigir um giallo, mas se Sandra Bullock decide dirigir um… bem, eu ia querer ver o resultado. É aquela velha história de que “notícia é quando o homem morde o cachorro”… e eu acho que, no caso dos clipes “indie” de MGMT e Yeasayer, o espetáculo vale a pena, pois são trabalhos muito bem realizados. É válido também ficar de olho nesses diretores, já que atualmente o cara que filmou “Smells Like Teen Spirit”, do Nirvana, refilmou “A Hora do Pesadelo” (que eu não assisti e tenho medo do resultado. Já basta ter percebido que a “refilmagem” de O Lobisomem se parece mais com um Van Helsing 2). Enfim, uma indústria alimentando a outra: e, em meio a isso tudo, o gênero ganhando força e mais “tubulações” para o prestígio dos realizadores, vislumbrando um futuro ainda mais putanesco.

MGMT – “Flash Delirium”:

Yeasayer – “Madder Red”:

E pra finalizar, Receita de Macarrão à Putanesca:

http://cybercook.terra.com.br/receita-de-macarrao-a-putanesca.html?codigo=3984

Saul Mendez para o Gore Bahia, 26/08/2010

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