Isolation

que soninho bom.
“falei que Alprazolam era foda, eu avisei.”

Mutilação da xoxota é foda! [Lars Von Trier mestre, vou me redimir de um dia ter te achado um chato metido a sobrehumanamente inteligente].

Vou falar aleatoriamente aqui sobre alguns filmes atuais, e um clássico maravilhoso, sob a ótica da isolação, com Von Trier incluído na lista [falando nele, que foto linda a que ele tirou de gravata borboleta, todo in black sentado em uma poltrona do vovô e com um corvo morto no chão hein?].

Já cantava a música do JoyDivision, Isolation!

Surrendered to self preservation
From others who care for themselves
A blindness that touches perfection
But hurts just like anything else

Depois dessas palavras proferidas pelo [Rest In Peace] Ian Curtis, digo simplesmente: Charlotte Gainsbourg. Que coragem encarar a tortura de quase duas horas. Não tem sequer uma cena em  Antichrist onde a personagem que a atriz teve-que-suportar-interpretar não esteja perturbada emocionalmente, nem nas tão-faladas-e-na-verdade-pouca-coisa cenas de sexo [Quem acha essas cenas ‘sexo explicito’, não assistiu nada ainda nessa vida, nem sequer um Lust, Caution – que também é implícito mas muito mais forte. Filme muito bom, por sinal]. O sexo presente em Anticristo é um ‘velozes e furiosos’, é muito mais uma situação tensa e uma explosão de raiva do que sexo, com exceção do ballet orquestrado em P&B no Prólogo [o filme é dividido em capítulos, como todo mundo sabe]. No entanto, embora o sexo não seja explícito nem erótico, os órgãos sexuais são bem explícitos, especificamente em duas cenas chocantes de assombrar a vida saudável de qualquer pessoa. Se você for homem, nunca mais vai querer gozar, se for mulher, nunca mais vai se depilar na vida. Os personagens isolados em uma floresta sombria [re?]descobrem uma natureza malvada incrustada no âmago da feminilidade desde tempos remotos. Lars Von trier, seu maquiavélico! Levantou bem a bandeira da misoginia, muito bem. Que filmaço.

Sem falar na qualidade de som e imagem, nas experiências com cortes e fantasmagorias, na sanguinolência e na computação gráfica [ou não] muito realista nos animais. Falamos aqui , quem sabe, de um Cannibal Holocaust??? segundo os créditos, não. Eu tenho lá minhas dúvidas, mas as capacidades do cinema moderno nos deixam mesmo perplexos na semelhança com a realidade.

essa galere maneira da produção, cheia da habilidade.
“essa galere maneira da produção, cheia da habilidade.”

Enquanto na floresta do Eden o pau come, um filme que era pra ter sido lançado em 2007 nos cinemas de todo o mundo, chega agora em 2009 direto em DVD (Leiam aqui a historinha contada por Pedro Beck). Trick’r Treat é “o” filme de haloween, diversão que facilmente vai se juntar a Sleepy Hollow, Evil Dead, Creepshow et cetera na lista dos melhores pra se assistir nessa época do ano. Produzido pelo adaptador de quadrinhos Brian Synger, esse filme tem um roteiro com altos e baixos mas pra lá de bacana, onde algumas histórias se interligam na noite de haloween de uma cidadezinha do interior americano. É uma homenagem aos quadrinhos clácicos da EC [vide Tales from the Crypt] que já teve diversas outras homenagens por aí, sendo a mais memorável o próprio anteriormente-citado Creepshow. Os personagens isolados também tem um importante papel nesse filme extremamente focado na imagem: Uma nerdinha que sofre bullying e vive trancada em casa pesquisando sobre  a noite de Samhain é a peça chave em uma das histórias – que acaba lançando mão de um flashback onde um ônibus escolar para alunos especiais afunda na lagoa; Remetendo ao mesmo flashback, a história que encerra o(s) conto(s) por completo é carregada de peso na consciência de um personagem isolado em sua casa, alheio à festividade.

Esse filminho divertiu minha tarde esses dias, e eu pretendo reassisti-lo em breve, muito em breve. Em alguns momentos me lembrou também das melhores partes de Companhia dos Lobos, do Neil Jordan, com uma pitada de Joe Dante também. Na verdade, me lembrou de muita coisa, e esse citacionismo é bom – apesar da crítica só considerar legal quando isso vem de Quentin Tarantino.

Um filme que eu ví já tem tempo em versão CAM, que eu já neeeem lembrava mais, chegou no cinema por estes cafundós – o tal do Orphan, que gerou o bafafá todo com a associação dos orfanatos dos EUA que queriam boicotar a parada com uma campanha cheia de charme com adaptações do cartaz oficial. Claro que eu me empolguei tanto quanto com a campanha de e-mails forwarded pra não assistir Turistas. Corri pra ver.

"toco festa no apê de trás pra frente"
“toco festa no apê de trás pra frente”

Resultado: achei o filme uma tentativa de ser O Anjo Mau (lembram do Macaulay Culkin na sessão da tarde, matando cachorro com prego?). Mas claro, O Anjo Mau supera. Nem a participação de uma sósia da Whoopi Goldberg em Mudança de Hábito morrendo à base de martelada salvou, na minha humilde opinião. Você vai no cinema pra assistir Supercine? eu não, e na verdade até dispensa na minha noite de Sábado também. Mas existe um único fator legal no filme, que é talvez o ponto de virada em que o filme se permite um toque mágico do cinema fantastique. E que é algo que não posso citar mais, depois que já acabei com a graça de certas pessoas spoileando geral! Mas enfim, depois disso dá pra sacar mais ou menos o isolamento da garotinha que todos têm em vista como uma peculiar superdotada que toca piano, sabe russo, pinta e borda [literalmente]. Depois dessa mudança repentina no roteiro, eu comecei a achar o filme mais parecido com o clássico comédia do Tom Holland, Brinquedo Assassino. Pobre Chucky… como você conseguiria se sociabilizar estando preso àquele corpo? não tem Good Guy certo. E, ao falar em orfanatos [assim como asilos, prisões, gaiolas e até casamentos, a depender] o pior de tudo é quando o isolamento é alheio à sua vontade. Você simplesmente está. Get Frenzy, then!

tamanho não é documento.
“olha só, seu problema é q vc é complexado com tamanho”

Voltando agora ao Anticristo lá de cima, é perceptivel até onde o isolamento pode levar uma pessoa – “Quando os três mendigos chegarem, alguém deve morrer”. Mas o afastamento psicológico retratado no filme de Lars Von Trier é referente a uma espécie de fraqueza perante si mesmo, apesar da ajuda de todos. O isolamento acaba sendo uma opção teleguiada da personagem pelo próprio sentimento de culpa em que se encontra, mas sentimentos mudam e logo que a consciência e racionabilidade retornar, a sociabilidade se instaura novamente e os amigos aguardam de braços abertos. Já a situação física não muda, e o isolamento que vem do outro em relação a você – a rejeição – não é passivel de mudança. Assim como a órfã está presa em uma situação que automaticamente a isola, todos os personagens retratados por Tod Browning no clássico Freaks, da década de 30, estão automaticamente isolados a partir do momento em que nascem.

A obra, além de perfeita em qualidade de imagem, composição, roteiro, diálogos, é também um grito de socorro, um alerta, e funciona muito bem até como metáfora política, onde a união faz a força dos mais fracos. O que restou do filme [que apesar dos milhares de cortes ainda foi proibido em muitos países e mal-falado na época, sendo desenterrado em tempos de contracultura e paz-e-amor] não passa de uma hora e uns pingados de duração, mas é um espetáculo apart perto de qualquer filme atual e ainda mais de sua época. Um dos raros prazeres que só as pérolas do cinema de horror proporcionam. Que Cidadão Kane que nada. Tod Browning já fazia arte e Orson Welles devia estar engatinhando.

Vou encerrar, chega de considerações por hoje. Pra quem gosta do gênero, abraça a causa e corre pra assistir Freaks, Antichrist e Trick’r Treat [Orphan não, é desnecessário hahaha] sem mais palavras de minha parte e sem mais demora – e ainda comenta aqui na sequência o que achou. Nada de ficar se isolando [pra não acabar igual a Gainsbourg, batendo siririca no mato]. “We accept you, one of us…”

Saul Mendez para o Gore Bahia 14/10/2009

6 Comentários

  1. Gente, foto linda essa primeira do post, FEELING hein😉

    E Jesus & Mary Chain e de fazer chorar litroosss mesmo, he-he.

    Beijos
    F.S

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  2. Prezado
    Parabéns pelo blog!
    Abs
    Alexandre Taleb
    Consultor de Imagem/Personal Stylist
    Visite meu blog: http://ataleb.wordpress.com/

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  3. Dear Friends, Happy Halowen!!

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  4. Você é um escroto.

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  5. Finalmente vi Orphan, Antichrist e Trick ‘r Treat (Freaks, fico devendo), e li seu texto, seu spoileador de merda. Haha, grande texto.

    Von Trier realmente me traumatizou com aquela ejaculação sangrenta. Já a parte em que a Charlotte corta as partes baixas eu simplesmente passei no FF do dvd… (porque eu não sou obrigado a ver isso). Achei o filme qualquer nota. Digo, os atores são ótimos, a raposa falante é mara, mas não passa de uma masturbação pseudo intelectual de Trier. Voto a favor da eloqüencia visual e do terror físico que o filme proporciona, mas não me conquistou.

    T’rT tem bons momentos, é bem dirigido e o elenco é baum, mas também não me conquistou. É um trem fantasma sem arrepios. Logo depois vi o The Funhouse, que também me decepcionou, e é meio que tio-avó do filme de 2009, né?

    Já Esther é do balacobaco, mas o filme é clichê demais e perverso de menos pra conquistar o meu coração. Mas escrevi sobre ele aqui:

    http://joaofoiprocinema.wordpress.com/2010/07/03/a-orfa/

    BUH!

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  6. eu já tinha assistido a orphan, e o anticristo tb. me surpeenderam os dois. Gostei de assistir a orfã, Lars Von Trier tem um filme que é muito mais lindo, com a Björk, O Dançando no escuro. um dos meu favoritos.

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