Triângulos, Cubos e Godard [Big Post]

Brainies.


Cinema fantástico sutil e bem realizado com poucos recursos e pouco apelo sexual, bizarro ou violento. É, provavelmente, a pior estratégia comercial possível, pois os apelos sensoriais são deixados quase todos de lado e se valoriza principalmente o raciocínio. Não é difícil chegar à conclusão de que o raciocínio é a habilidade humana menos empregada – e que o ato de pensar é provavelmente o mais ridicularizado e demodé, e isso vem muito antes de Chiclete com Banana passar a representar uma banda de axé e não mais uma ótima HQ.

Simplesmente, pensar não é a preferência. Ninguém quer ser considerado burro, então ninguem quer ver um filme repleto de pancadaria non-sense sem nenhuma trama minimamente interessante ou um diálogozinho complementar – mas para essa satisfeita maioria que consome Jerry Bruckheimer, o minimamente interessante basta e além disso o esforço pessoal para a compreensão e posterior deleite de uma obra é muito cansativo. A resposta é apertar o stop e partir pra próxima.

Dentro dessa linha que prioriza o raciocínio, adquiri uma certa estima pelo Triangle de Christopher Smith, que é um diretor muito bom naquilo que faz; e o Cubo de Vincenzo Natali é, para mim, mais do que aparenta inicialmente, também um filme que prioriza o raciocínio. Em suas semelhanças, temos um financiamento bastante restrito e a necessidade de tornar um material que poderia ser grande em um material feito com o que se tem às mãos. No caso de Cubo, a coisa é mais pesada: filmado em um único cenário, se desenvolve uma trama onde a imaginação estimulada na mente do espectador tem extrema importância para que o filme cumpra sua função – na tentativa complexa de ampliar um espaço virtual onde, na verdade, o que se observa na tela a todo momento é o mesmo ambiente.

Em Triangle se possui um pouco mais de ambientes para a ação, porém o problema é conseguir transmitir com precisão uma relação espaço-temporal complexa. Ambos os filmes, Triangle e Cubo, também se assemelham na temática FC: enquanto um trabalha com uma pessoa que tem suas escolhas dificultadas pelas adversidades impostas no famoso “triângulo das bermudas”, o outro trabalha com um grupo de pessoas que acorda certo dia dentro dentro de uma estranha sala quadrada e fica também, à sua maneira, preso pelas adversidades impostas pelo ambiente. Em ambos os filmes se desenvolve um clima de mistério digno do cinema fantástico, e disso se resume a necessidade de um maior envolvimento e raciocínio por parte do espectador.

Por se tratarem de filmes realizados com relativamente poucos dólares e, ainda assim, se aventurarem em obras acima da média e que priorizam o desenvolvimento de uma boa premissa por caminhos não-convencionais, são dignos de relevância, cada um à sua maneira.

Curtindo um curta (por essa linha).

“Era 24:17 quando cheguei ao subúrbio de Alphaville”

O curta de Roberto Cotta intitulado “Maldito Ladrão de Memórias” é resultado de um projeto de filme colaborativo do qual participei no ano passado e que por fim foi apresentado como trabalho de conclusão de curso na graduação de comunicação social da UESC, além de ter sido exibido no Short Film Corner no festival de Cannes 2010. O curta pode ser retratado como uma experiência em cinema fantástico, pelo menos em sua temática. Temos a ficção científica e o mistério em torno de Dr. K, o suposto organizador de leilões onde são vendidas lembranças dos mais diversos indivíduos, que uma vez “inseridas” agem como uma espécie de droga, causando o prazer e também o vício. A abordagem procura misturar caricaturas próprias de um noir com as também caricatas figuras e características culturais brazucas.

From right to left...

Ainda, o que nos lembra principalmente a mistura de ficção científica com noir é o filme Alphaville, de Jean-Luc Godard – e a influência deste diretor vem à mente não apenas na narrativa balbuciante do personagem principal, não apenas em seus modos rudes e toda a caracterização própria do gênero, como também na habilidade de ambos os diretores no que tange à composição das imagens. Aqui ressalto (imagem acima) a composição “espelhada” de Godard em Le Mépris, e a mesma perspectiva (que acredito não ter sido copiada, mas sim inconscientemente realizada e digna de quem possui um bom olho) em “Maldito…”. Além dessa, outras escolhas no enquadramento e sequência são muito bem realizadas, ressaltando o momento em que o personagem principal caminha pensativo pelas ruas da cidade (imagens abaixo):

Isso, meu filho.

Vai lá pelo cantinho.

Enfeita essa paisagem.

Percebidas essas qualidades, no entanto, é necessário afirmar que o maior incômodo ao longo dos quase 30min do espetáculo é, na verdade, a falta de incômodo. Enquanto as composições são bem planejadas, os enquadramentos soberbos, a câmera em si não tem vida – o que diverge do tom de Godard em Alphaville, cuja câmera impaciente segue a ação de esquerda a direita, para o infinito e além. A imparcialidade e rigidez da câmera se une à mesma imparcialidade e rigidez da montagem. Isso ao menos seria uma opção estética de “quebra de tom”, caso se tratasse de uma obra onde a ação é realizada pela física dos personagens em cena; no entanto o roteiro é focado principalmente no diálogo, o que acaba gerando um “mono-tom” que não deixa de ser percebido seja pela circularidade da temática abordada nos diálogos, seja pelos cenários restritos, o que, em quase 30min gera uma certa ansiedade.

Ao falar de filmes inteligentes, filmes que privilegiam o raciocínio, facilmente percebo uma ligação com a estrutura de “Maldito Ladrão de Memórias”, pois se trata de um filme completamente cerebral, que peca justamente na falta de uma relação mais “física” seja entre os personagens na narrativa, seja entre  o diretor e o meio. Embora com uma direção habilidosa e consciente, dotada de um olhar visual artístico incontestável, Roberto Cotta “pensa” a câmera; ele ainda não está fazendo sexo com a câmera, ele ainda não está lambendo os orifícios da fita miniDV e mastigando o rolo de filme. Neste “Maldito…”, ele não chegou a copular com a obra – o resultado é, portanto, sem gozo.

O presente curta permanece, talvez pelo processo bastante “estruturativo” ou, digamos, “calculista” do projeto proposto como um filme colaborativo, muito semelhante à forma de agir de uma mulher que esfrega a buceta na nossa cara, mas avisa: “só depois do casamento!”. Ficamos com o pau na mão, mas é inegável o prazer de ter um full frontal na beirada do nariz.

Certamente boa parte dessa sensação fique também por conta da própria atuação, além de outros fatores que são um problema de toda e qualquer produção realizada com a dependência extrema do equipamento e da disponibilidade de horários na instituição. O tempero que causa um diferencial vem de fora – o incrível Alex Francis, que interpreta Parombal com um misto de insanidade e expressões faciais dignas de um Vincent Price.

Alex Francis e suas mil faces, um deleite para as produções audiovisuais!

Últimas (e práticas) considerações Sobre o “Maldito Ladrão de Memórias” (ou simplesmente Maldito Dr. K)

Se, no entanto, o tom constante gerado na obra acaba se tornando uma estética do todo, esse clima é quebrado no pior momento possível: assim como meu amigo Leandro Afonso, concordo completamente que o final é totalmente desnecessário, além de extremamente esmiuçado em explicações na narrativa em off (o que retira do espectador a importante função de pensar, própria do roteiro extremamente cerebral). A impressão que ficou foi a mesma da versão de Blade Runner do (hoje detestável) Ridley Scott que foi aos cinemas em 1982; simplesmente arrancando fora aquele infeliz “final feliz”, encerrando por fim com o fechar das portas do elevador e deixando começar de vez os créditos ao som de Vangelis, o filme cresce muitos metros em consistência e em profundidade. Essa foi a primeira coisa a ser feita para a versão do diretor, já que aquele finalzinho mimimi tinha sido forçado pela produtora. Não é o caso de “Maldito…”, mas qual terá sido o caso enfim…? minha perspectiva para o final com suas explicações desnecessárias é que o mesmo tenha sido planejado talvez para “tapar alguns buracos”, que seriam 1- mostrar o leilão de memórias, 2- dar algum sentido maior à presença do personagem Osório, que fica à margem durante muito tempo no roteiro e 3- inserir uma imagem feminina pra dar um toque feromonial no meio de tanto homem discutindo cafés e Pitus. De qualquer forma, seria o caso de pensar, posteriormente, uma versão 2.0 do curta.

A trilha, embora bem realizada, procura seguir o ritmo do que está na tela, contribuindo para o mesmo tom. É o trabalho de quem conduz uma trilha, normalmente, mas não era o que a obra necessitava. Talvez um toque surpreendente mesmo em momentos pacíficos poderia quebrar um pouco com o ritmo, a exemplo do que a trilha do próprio Alphaville realiza –  enquanto o detetive caminha pensativo em seus murmúrios narrativos, a trilha explode em ação tresloucada. Porém a trilha não constitui um problema exatamente, já que ela se encaixa perfeitamente ao curta e é muito bem executada. Tinha o potencial, no entanto, de contribuir com a falha maior que citei.

Cenas de "Vincent Vega Morre Cagando"

Ainda, me vem à mente que, além da trilha original, não faria mal uma faixa musical em algum fragmento que pudesse dividir o ritmo narrativo dos longos 30min com um momento diferenciado, um Allegro. Quem sabe, mostrar o tal “processo de transmissão de memórias” que tanto circunda os diálogos e os pensamentos do detetive Gomide não fosse de todo mal – o que provavelmente nos renderia uma legal sequência audiovisual, à semelhança daquela cravada automobilística de heroina em “Vincent Vega Morre Cagando”, vulgo Pulp Fiction.

Quanto à CG, só tenho enormes elogios para a abertura e encerramento, que ficaram profissionais e coerentes com tudo (inclusive é um trabalho invejável). Mas a CG do tiro (ops, spoiler! adoro!) não é de fácil absorção, a não ser que o efeito possa ser, também, colocado em preto e branco como o resto das imagens. Porém, como a estética geral da obra não condiz, acredito que a preferência seria algo mais sutil, ao invés de CG.

Apesar das potencialidades (pois não são exatamente falhas mas possibilidades) ressaltadas, ao todo é uma obra corajosa, que desenvolve bem os diálogos no roteiro, a composição visual na tela, a estética uniforme e até mesmo a direção dos atores (desconsiderando o já comum amadorismo dos mesmos e alguns silencios perigosos, percebem-se também momentos de bom entrosamento entre os atores “da casa”. Alex Francis então, é um caso à parte); o curta comprova não só uma habilidade do diretor mas também, devido às circunstâncias diretamente ligadas a um TCC, a importante “voz de respeito” e “peito de pombo” que alguns precisam impor em ordem de fazer aquilo que querem quando seu trabalho está atrelado às diversas barreiras (diretas e indiretas) institucionais. É um curta que mostra uma qualidade muito superior àquela que se tem visto na UESC desde sempre, o que por si só é um mérito; quanto à distribuição, sem palavras. Se decidir desenvolver um roteiro cerebral de cunho fantástico é “botar a cara a tapa”, enviar o vídeo para o festival de Cannes é mais ainda. Por essas e outras, o trabalho é bastante satisfatório e assisti-lo é um ato (mental) de prazer.

Todo e qualquer vídeo nasce sempre com a perspectiva de melhoras e com muitos dedos pra apontar aqui e ali os buracos e as possibilidades de enfeite. De qualquer detalhe que poderia ser ressaltado para o desenvolvimento das futuras e promissoras produções do diretor, eu digo: jogue o tripé fora e FÔDA a câmera, que tenho plena certeza de que o resultado mudará de ótimo para excelente, e o prazer de assistir a obra será para o espectador tanto mental quanto carnal.  A ação física precisa existir com mais constância – se não no que a câmera capta, no que a câmera faz. O caminho é esse, e você está caminhando nele (poucos conseguem botar o pé no asfalto). Mas pra deixar marca no chão, agora tem que subir na Harley Davidson e cantar com os pneus. Aproveitando a deixa, e um tanto atrasado, R.I.P. Dennis Hopper!

O Maldito Ladrão de Memórias (2009) from Roberto Cotta on Vimeo.

Aos interessados, assistam o curta, comentem e divulguem!

Saul Mendez para o Gore Bahia, 30/06/2010

3 Comentários

  1. Olá, muito bom os seus artigos. Nós montamos um canal para conversar sobre filmes de terror #filmes_do_mal , no servidor de IRC irc.rizon.net. Apareça por lá se puder. Abraço🙂

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  2. Não podia deixar de tecer meus comentários sobre Alphaville (um dos maiores filmes que eu já vi ao longo de minha farta vida cinéfila). Godard em sua máxima excelência! Estou tentando compmrar o DVD do filme a cinco anos e não estou conseguindo encontrá-lo em lugar nenhum.

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  3. cure trichotillomania naturally

    Triângulos, Cubos e Godard [Big Post] | GORE BAHIA

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