O Horror Dominará o Mundo.

Sim, eu sei o que parece.

Quando observo a quantidade de bons festivais voltados para o cinema fantástico e de horror que existem ao redor do mundo – alguns tão grandes e tão patrocinados quanto um Comic Con – eu só tenho a perceber o crescimento do nicho, neste século recém-nascido, de uma forma verdadeiramente putanesca (longe de conferir o mesmo sentido da receita de macarrão). E isto, dentro do sentido que aplico ao termo, pode ser entendido de duas formas: seja como algo literalmente, putanescamente vendido, ou como algo grandioso e benéfico. Isso sempre funciona pelos dois caminhos e depende muito de como os realizadores se utilizam da ferramenta “festival”.

Enfim, não tenho como falar mal de festivais como Fantasporto e Sitges, por exemplo, que chegam já às suas milenares edições e ainda prestigiam e vêem aquilo que ninguém quer ver. E premiam. Minha aversão à premiação como oficialização de conchavos políticos, ainda assim, não se aplica como um fator negativo capaz de reduzir a importância da existência desses eventos. E essa lista de festivais do bom cinema vai além da península Ibérica, partindo para Canadá, Japão, Austrália, Itália (claro)…

Paisagem Fantasportina.

Esses festivais e seus filhotes que anseiam por ser um reflexo perfeito do sucesso paterno compõem, de fato, a tubulação por onde escoa a produção criativa da área. A falta de festivais ocorre comumente pela falta de patrocínio, pela falta de incentivo governamental; e da falta de festivais decorre, sendo essa a tubulação principal, a problemática da distribuição – que se procura driblar hoje principalmente nos recônditos da Internet. Mas a esse assunto não interessa chegar agora, de qualquer forma.

Retornemos.

Onde eu quero chegar exatamente é à expansão do gênero horror no cinema e nas produções independentes, seja dentro de seus próprios limites narrativos quanto em suas barreiras mercadológicas. Muito provavelmente isso se deveu ao acesso gratuito por Torrent, E-mule, e seus predecessores Kazaa, Soulseek… a velharias esquecidas do cinema setentista e outras pérolas de décadas passadas. Houve uma explosão de curiosidade na geração DIY, nos entusiastas da cultura “indie”, e muito da importância dada aos filmes “B” hoje (sobre os quais já se diz, carinhosamente: “B de Bom”) advém desses jovens alienados na frente de um computador. Uma população de comportamento pouco sociável da qual não se esperaria a formação de um público para inscrição em festivais. Diriam as pesquisas. Porque, na realidade, basta tirar a limpo os números com os organizadores e patrocinadores de todos esses eventos citados lá no início. Eventos que tendem a crescer em número e grau.

Belial, é você?

Alguns desses jovens entusiastas e curiosos se tornaram músicos renomados das incursões independentes mais variadas que existem hoje no rock (se é que ainda podem ser chamadas de “rock”). E a influência do gênero horror fantástico pode ser observada em alguns de seus clipes atuais, como o já menos transmitido “Flash Delirium” do MGMT, o recém lançado “Congratulations” da mesma dupla e também o videoclipe do Yeasayer lançado hoje: “Madder Red”, que nos primeiros segundos já remete ao Basket Case do Henenlotter. Em minha juventude o mais perto disso que as produções de videoclipe chegavam – em qualidade – vinham da banda Bush do metido-a-besta Gavin Rossdale, especificamente o clipe da música “Greedy Fly”, que era praticamente um mini-filme. Na linha dos clipes de metal nem vale citar, porque muitas bandas dentro dessa sonoridade seguem, desde sempre, por essas trilhas – e é o mais lógico que fazem. Em uma comparação: não surpreende Argento dirigir um giallo, mas se Sandra Bullock decide dirigir um… bem, eu ia querer ver o resultado. É aquela velha história de que “notícia é quando o homem morde o cachorro”… e eu acho que, no caso dos clipes “indie” de MGMT e Yeasayer, o espetáculo vale a pena, pois são trabalhos muito bem realizados. É válido também ficar de olho nesses diretores, já que atualmente o cara que filmou “Smells Like Teen Spirit”, do Nirvana, refilmou “A Hora do Pesadelo” (que eu não assisti e tenho medo do resultado. Já basta ter percebido que a “refilmagem” de O Lobisomem se parece mais com um Van Helsing 2). Enfim, uma indústria alimentando a outra: e, em meio a isso tudo, o gênero ganhando força e mais “tubulações” para o prestígio dos realizadores, vislumbrando um futuro ainda mais putanesco.

MGMT – “Flash Delirium”:

Yeasayer – “Madder Red”:

E pra finalizar, Receita de Macarrão à Putanesca:

http://cybercook.terra.com.br/receita-de-macarrao-a-putanesca.html?codigo=3984

Saul Mendez para o Gore Bahia, 26/08/2010

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2 Comentários

  1. Bom, é verdade que as pérolas de horror de antigamente, pelo menos para nós, brasileiros, periféricos, estão sendo descobertas-redescobertas graças à internet e a tecnologia.

    Horror é muito subestimado e marginalizado, e mesmo com a profusão dos dvds é difícil acompanhar e garimpar tudo o que se quer. Por exemplo, pegue um filme de sucesso (pelo menos cult) como A BOLHA (o remake). Lembro de ver trechos na Globo quando era pequeno, e procurei em locadoras, e não achei. Acompanho a programação dos canais pagos brasileiros, e nunca vejo algum exibindo esse – já Um Lugar Chamado Notting Hill é reprisado quase semanalmente, em uns três canais diferentes.

    Tive que baixar, já que o dvd nacional não é mais produzido, nem vendido. Tudo isso só pra dizer que o horror é mantido, por diversas razões, numa vala obscura, e , por razões que só o diabo sabe, o que chega ao mainstream é justamente o lado mais fraco e ordinário das produções. Why?

    Psiu – Desde o ano passado em São Paulo rola um amostra de terror, parece legal

    E em Minas, o Indie Festival (o desse ano tá rolando esta semana) sempre exibe filmes de horror e fantasia, principalmente os orientais. Nas Mostras de São Paulo e do Rio, embora de forma tímida, sempre passa alguns filmes do gênero, sem distinção e preconceito, suspeito. No blog do Felipe Guerra, volta e meia ele comenta uma mostra – festival de horror que rola lá no sul. Em Goiás também tem um festival de “Filme trash” – embora o que é trash é um assunto discutível.

    E no Nordeste, que é consideravelmente composto por algumas das regiõe mais dignas de filmes de terror do país? Espere sentado.

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  2. Muito bom este clipe do MGMT, e o que me chamou atenção foi a produção, tem cara de clipe caro – ainda mais pra eles, que adoram uma coisa caseira e com cara de barato, digamos assim. Adoro os de The Youth e Time to Pretend, e o oficial de Kids também é interessante, com aquele pobre bebê e o monstrão.

    O legal deles é que as referências não são apenas diretas, eles captam um certo clima, e são muito originais. As reações passionais aos clipes (nós fãs gostamos, é só ler os comentários do YouTube) só mostra que funciona, e muito. Mas, para o público em geral, a sensação deve ser mais de “que clipe muito louco”, ou simplesmente “que clipe podre”,rs.

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