Liam Neeson estava lá.

 

No cantinho, de boa.

Enquanto a feijoada e o churrasco rolavam e os primos encachaçados da minha mãe jogavam baralho, a Rede Globo de Televisão transmitia na sessão da tarde um filme fantástico muito foda com um ciclope e um grupo composto de ladrões, um mago, um velho sábio e por aí vai, seguindo bem aquela linha Dungeons and Dragons que fervia em torno da minha infância. Algum idiota devia estar tentando me botar pra provar cerveja – no auge dos meus sete anos de idade – e alguma prima chata devia estar querendo brincar e precisando de um marido pra compor a casinha, mas eu tava mesmo era vidrado em uma sequência louca que se passava em uma espécie de pântano: Areia movediça, galera chegando com armaduras negras e lasers, luta de espadas… tava tudo ali. E Liam Neeson também tava ali, no meio do elenco de KRULL, um longo e marcante filme de fantasia que bota o Lord of the Rings do Peter Jackson no chão – ainda que não chegue aos pés do Lord of th Rings literário, de onde suga estrutura e muitas passagens, como a aranha gigante da montanha que existe praticamente em uma mesma posição na timeline onde Laracna surge na obra de Tolkien. Ainda assim, que filme! Bem conduzido, continua um bom filme, pois tem aquela capacidade das boas coisas velhas que possuem o mesmo apelo a cada década que passa, vide Luluzinha e afins.

Se preparando pra falar umas verdades.

Como um Gawain esperto e sem papas na língua, Liam Neeson também está lá, em Excalibur, botando lenha na fogueira e soltando a palavra pra deixar bem claro que a carne real de Guinevere andava sendo cavalgada por outro que não o Rei Arthur. No tempo em que a espada era a lei, ainda se confiava em adaptar os bons legados da humanidade para as telas, sem Clive Owen e sem tentativas de precisão historico-científica para lendas, folclores e afins. Em um filme longo para os padrões atuais, temos a mais bem contada versão da saga arthuriana já realizada para as telas. Cenas de batalha sem Orlando Bloom; Ridley Scott longe das linhas de produção; nenhuma computação gráfica desnecessária; Cores e cenários inspirados, e fantásticas sequências de combate testa-a-testa como Lancelot vs. Arthur, Lancelot vs. Gawain, e o rápido porém não menos belo Arthur vs. Mordred. Longe de ser perfeito em muitos aspectos técnicos, mas perto do sublime ao retratar a saga completa como nenhum outro e – isto é bom – sem gerar o temido efeito Alprazolam.

Saint Hauer

Liam Neeson não estava lá: Conquista Sangrenta, do Verhoeven. Mas Rutger Hauer estava, e tão bem quanto em Blade Runner. Aliás, por que motivo o Hauer nunca despontou? Será que é porque ele nunca des(a)pontou, e o interesse maior de holywood em verdade é nos deixar tristes, com a sensação de que fomos roubados em nosso dinheiro e em nosso direito à felicidade? Título Original: Flesh + Blood. E estão os dois lá, do início ao fim, bem presentes, a carne e o sangue! Pro prazer geral dos vikings de plantão! Não arrisco dizer que tenha sido o melhor que Verhoeven já fez, mas dentre os filmes que muito amo deste diretor excepcional, este é o que mais me conquistou. E foi uma conquista sangrenta, sim. Jennifer Jason Leigh, obrigado pela nudez explicita constante e pela melhor cena de estupro  – consentido – que já assisti. Rutger Hauer, você é um deus da atuação. Poledouris, componha a trilha da minha vida. Verhoeven, me passa um pouco dessa erva que você fuma. Ela é boa.

E, Neeson, você estava no caminho certo. Pena que você não caiu também nas graças de Verhoeven… se bem que: o que é melhor, ser um ilustre desconhecido como Rutger Hauer ou fazer parte do elenco de ESQUADRÃO CLASSE A e SE BEBER NÃO CASE 2? Perguntas difíceis da vida.

Saul Mendez para o GORE BAHIA, 28/03/2011

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