Sobre Mark “Chopper” Read, Hunter S. Thompson e seus “COJONES”.

El Toe-cutter

Hoje encontrei Fear and Loathing (o livro) na estante de livros de bolso. Também encontrei um DVD de Woody Allen por 9,90. Essas coisas normalmente acontecem quando não tenho qualquer dinheiro no bolso. De qualquer forma, andei satisfazendo minha fúria consumista com 1) Greenwich Village 1963, livro que achei por 5 reais no Hiper BomPreço e que vale a pena por tratar de um dos temas que mais me agradam – contracultura 60/70 – e 2) downloads! Depois de muito tempo com o Megaupload travado em algum IP que já tinha expirado o limite da baixação, consegui sugar um filme que queria ver há algum tempo, o CHOPPER com o Eric Bana no papel de Mark Brandon Read , um bandido e assassino australiano.

Não ando muito ligado na parte técnica ultimamente (estou sem saco mesmo), então foi um tanto agradável assistir um filme só pela história e sem especificamente procurar também algo do gênero horror pra assistir (as ultimas coisas que assisti do gênero não me agradaram muito, com exceção, talvez, de CARRIERS que valeu a hora e meia – claro que estou falando dos filmes ATUAIS que andei assistindo, já que os antigos quase sempre acabam valendo).

Sobre o CHOPPER é o seguinte: é um filme que merece ser visto com a mente aberta e, provavelmente, é um filme que vai agradar mais aos homens (como de costume em tudo que eu posto no GOREBAHIA, sem preconceitos mas é bem verdade). O filme não procura redimir o personagem por nada do que faz e não faz um histórico da infância do cara, simplesmente começa com ele já preso e, ainda assim, no auge da malandragem… o roteiro segue uma linha bem cômica e estilizada na linha de Trainspotting – ainda que bem menos afetado, o que dá um outro ar. Fica claro que para o diretor Andrew Dominik (do ótimo O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford) o foco aqui não é exatamente o estilo, mas os diálogos que geram situações tensas e intrincadas e a complexidade de um personagem que se contradiz a torto e a direito.

O grande lance que atrai para o filme é que, apesar de ser uma figura reconhecida no “outro lado da moeda social”, Mark Brandon Read se tornou um escritor de best-sellers sobre seus próprios crimes. Pelo visto ele não lucra muito com as vendas, já que o país proíbe que “criminosos” lucrem royalties – os mesmos são recolhidos como impostos -, ou seja, vai lá saber quem é mais criminoso nessa história.

El Ear-cutter

O filme aplica sua dose de violência logo de início, onde se concentram as cenas mais pesadas do filme todo – ou seja, quem passar por aí curtindo pode ficar um pouco menos sorridente mais pro final, e quem passar por aí chocado eu duvido que se interesse pelo resto; mas o fato é que o filme chega a um fundo de verdade interessante sobre mercado, sociedade, e a vida em si. Algo mais ou menos assim: existem tantas formas de viver quanto você quiser, o risco é só seu, e às vezes as opções que não estão exatamente lá podem ser garimpadas, se você tiver coragem pra isso.

Pra um bandido que, de acordo com o filme (que se baseia nos livros do próprio), seguiu essa vida por opção e não se arrepende em nada, pois sua visão era apenas a de um “operário em um campo de trabalho” – sair para um OUTRO campo de trabalho TOTALMENTE inverso (o de escritor), é algo que demanda muita coragem. Afinal, sendo já consagrado como uma pessoa deturpada (quem se interessaria em obter qualquer tipo de conhecimento escrito que advém de um suposto derrotado social?), e ainda assim conseguir sucesso em sua empreitada é, no mínimo, uma lição que diz: “quem tem culhões alcança o que quer”. Embora essa lição não venha exatamente do tipo de pessoa que se espera. O filme tem, então, uma perspectiva quase de auto-ajuda? Eu diria que tem, sim. E se auto-ajuda fosse escrota desse jeito eu seria o primeiro a estar na fila pra comprar os livros de Augusto Cury, mas esse aí é limpinho demais, certinho demais, e sinceramente não deve ter passado por muito nessa vida (ganhando o que consegue tirar por uma hora de palestra).

A dose de coragem transmitida por Mark “Chopper” é também extremamente mórbida e advém de uma espécie de desprezo perante a vida. A mesma despreocupação com que ele desfere golpes de faca na cara de um inimigo de cadeia e, logo após, pede desculpas e oferece um cigarro enquanto o cara se esvai em sangue, é a despreocupação que observamos enquanto ele mesmo LEVA facadas no tórax, e, entre um intervalo de lâmina e outro, tenta conversar com o agressor: o abraça, pede para que pare com isso e façam as pazes. Ele sublima a dor e a lógica mortal da situação. Quando preciso, corta as orelhas para ser transferido de seção. O colega de cela escolhido pra “passar a navalha” na cartilagem treme feito bambu, enquanto CHOPPER simplesmente diz: “corte logo, que frescura!! Arranque fora!!”. O que deve ser feito, deve ser feito.

El Dope-eater

Então, hoje quando vi o Fear and Loathing na prateleira da livraria me lembrei do Hunter Thompson e associei o tipo de coragem insana do Chopper ao maníaco do jornalismo gonzo. É uma coragem que admira pelo masoquismo – embora no caso do Hunter não exista uma ligação com o corpo ou com uma dor física. É uma questão apenas social onde ele É um jornalista ainda que NÃO QUEIRA SER um jornalista (conforme se convenciona, ou oferecendo o que se espera de um). Ele constantemente põe em risco sua própria carreira com atos (ainda que muitas vezes inconscientes) que acabam sendo prejudiciais mais para si mesmo do que para qualquer instituição da sociedade contra a qual irrompe. A “inconsciência” que eu cito, inclusive, é claramente uma inconsciência desejada e procurada (através de todo tipo de droga possível), pois para o seu “grande ato” ela deve ser dizimada. Algo como cortar as próprias orelhas. Por isso mesmo o capitulo inicial do livro (e uma sequência maravilhosamente bem dirigida por Terry Gilliam na adaptação cinematográfica)  já demonstra a perspectiva do autor: contratado para cobrir uma corrida no deserto em Las Vegas, além de papel e uma máquina de escrever, o mesmo se equipa com uma mala onde carrega maconha, cocaína, LSD e sabe-se lá quantas coisas mais. E a preocupação do mesmo é se isso tudo vai ser bastante pra cumprir com o trabalho. Certamente, o trabalho vai além do que foi pedido. Acho isso legal, um tanto pró-ativo e, se os livros de auto-ajuda empresarial que versam sobre pró-atividade fossem escritos pelo Hunter, eu também compraria.

Saul Mendez para o Gore Bahia,
07/06/2011 

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Muito antes de Jason Vorhees, o dia já causava tensão. Seu nome vem da deusa nórdica da fertilidade, Frigga, cujo culto foi considerado paganismo pelos cristãos. Diz-se que Frigga se reunia com mais onze mulheres para adorar ao diabo, décimo terceiro integrante do conciliábulo. Desde então, o dia de Frigga/Friday/Sexta foi assim nomeado no calendário como o dia das "bruxas". Ainda para os nórdicos, consta que Loki, num banquete em Valhalla, chegou em meio aos doze presentes (sem ter sido convidado) com o plano de matar Baldur, o preferido da galera. Qualquer semelhança com Judas Iscariotes, décimo terceiro em meio aos seus onze colegas apóstolos e Jesus de Nazaré, é mera coincidência.

Antropofagia cultural ou não, tomem muito cuidado com a Parascavedecatriafobia e bom happy hour a todos do GoreBahia!! Arte: Blair Sayer (www.shirtoid.com)

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