O retorno de TWD – violência explícita na TV!

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O público que acompanha The Walking Dead esteve dividido nos últimos dias, devido à chocante estreia da sétima temporada. Não foi surpresa alguma para quem acompanha os quadrinhos, e provavelmente não seria uma surpresa tão grande até mesmo para quem só acompanhava a série: Vários momentos de violência gráfica já foram exibidos ao longo de seis temporadas, seja com os personagens, seja com os mortos-vivos – que, apesar de cadáveres, não deixam de ser uma exibição explícita dos horrores da decomposição e dos elementos internos que compõem um corpo humano. Estejam avisados: o texto a seguir não poupa spoilers a respeito do primeiro episódio desta sétima temporada.

A VERDADEIRA VIOLÊNCIA

Grafismos à parte, trata-se aqui de uma estrutura narrativa que almeja, mais que o medo, o choque. Não há nada nos efeitos de maquiagem do personagem Glenn, interpretado por Steven Yeun, que realmente estejam além do que já foi exibido pela série. Também não há nada nas tacadas de beisebol proferidas por Negan na cabeça de Glenn que seja mais violento do que as já proferidas mutilações, cabeças estouradas, tripas arrancadas, além das formas mais criativas de destruição de um corpo humano já exibidas pela série. Portanto, o que ocorre em imagens é mais do mesmo; já o que ocorre internamente, na mente do espectador de forma muito subjetiva, é o que a construção da narrativa pôde propiciar: choque. Frente a isso, a crítica oficializada pela PTC (Parents Television Council) nos EUA ou chega seis temporadas atrasada no que tange ao GORE, à violência gráfica, ou se sustenta em bases muito subjetivas. A possibilidade de alguém ser “pego” pela narrativa e chegar a sentir algum tipo de choque no momento certo é muito variável.

Para os fãs do horror, o episódio de estreia da sétima temporada não poderia ser melhor. A tal construção narrativa planejada para revirar o estômago, para gerar tensão, funciona – e é o que se espera de um bom programa do gênero. Se a série não fosse capaz de gerar esses momentos, ela seria uma derrota e não se sustentaria por tanto tempo.

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No filme Matinèe (1993) de Joe Dante, John Goodman interpreta Lawrence Woolsey, um misto de homenagem a Hitchcock e William Castle. Em uma cena antológica o personagem, diretor de filmes B de terror com monstros atômicos, conta sua perspectiva do cinema de gênero da seguinte maneira:

“Um zilhão de anos atrás um homem sai da caverna onde vive e BAM! Se depara com um mamute. Ele morre de medo, mas consegue fugir. E depois ele se sente bem, pois se sente vivo. De volta à caverna, a primeira coisa que faz é desenhar um mamute. E ele pensa: bom, se as pessoas vão ver isto, vamos fazê-lo grande, com os dentes enormes, o olhar amedrontador. E aí está, o primeiro filme de monstros. E é por isso que os faço, pois posso fazer os dentes do tamanho que eu quiser e depois eu os mato, as luzes do cinema se acendem, e tudo está bem” (Assista em inglês: http://www.youtube.com/watch?v=MzBb1J_P1HM).

É basicamente essa sensação que o terror tem o dever de perpetuar.

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A arte de criar desconforto no espectador de TV não é sequer privilégio dessa première de TWD. O célebre diretor japonês Takashi Miike já teve seu episódio da série Masters of Horror (intitulado “Imprint”, 2006) cancelado de ser exibido, sob alegação de violência gráfica exacerbada. As cenas mais faladas desse episódio foram uma sequência de aborto que culmina com o feto sendo despejado na correnteza de um rio, e uma sequência de tortura onde agulhas são inseridas sob a unha da personagem amarrada, que acaba urinando de dor. É claro que, ao longo da série Masters of Horror, muita violência gráfica foi exibida. O caso do episódio de Takashi Miike se tratava, mais uma vez, não de um problema referente à imagética, mas sim com a habilidade crucial de criar um tempo narrativo, envolvido com a atuação, edição e trilha corretas, na proposta crucial para o gênero de gerar desconforto. É o caso de fazer tão bem o serviço de assustar, que ele se torna um crime. Ainda hoje, temos casos semelhantes como o horror psicológico de Black Mirror no Netflix, e na história do cinema são vários os momentos, com destaque para os filmes de David Lynch como Veludo Azul (Blue Velvet, 1986), o recente (e incrível) Bone Tomahawk (2015), e todo o universo dos exploitations setentistas, como o memorável caso de Cannibal Holocaust (1980) de Ruggero Deodato, o polêmico filme que foi parar em um processo judicial contra o diretor.

NOVOS RUMOS

The Walking Dead tem sido a arena de treinamento que revelou um dos maiores talentos hoje no universo do terror: Greg Nicotero. Ele teve a chance de ultrapassar, desde a terceira temporada, a linha que separa os efeitos especiais de maquiagem para tomar as rédeas da série como produtor executivo, roteirista e diretor. E tem se saído incrivelmente bem nisso. O episódio de estreia da sétima temporada marca de vez o nome de Nicotero no hall dos mestres do horror enquanto alça aos holofotes o trabalho de atuação de Jeffrey Dean Morgan, que está muito à vontade no papel do vilão Negan.

Com Nicotero no controle, esquecemos tranquilamente que George Romero (a lenda viva) declinou a proposta de participação na direção de alguns episódios da série, quando foi convidado em 2013. Segundo ele, The Walking Dead e Guerra Mundial Z (World War Z, 2013) foram os culpados por ele não conseguir emplacar hoje um projeto de filme “sociopolítico” de mortos-vivos, visto que depois dessas duas produções tanto os espectadores quanto hollywood estariam esperando simplesmente pirotecnias do gênero – estilo acima do conteúdo. A crítica não é válida, visto que nem os filmes de Romero são tão sociopolíticos assim e nem TWD ou Guerra Mundial Z estão longe de ser sociopolíticos – em verdade, as fontes originais de ambos (os quadrinhos de TWD e o livro de Guerra Mundial Z) se sustentam primordialmente nas bases formatadas pelo próprio Romero, expandindo-as consideravelmente de uma forma que o próprio Romero só se mostrou capaz em Diário dos Mortos (Diary of the Dead, 2007).

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Nicotero mostrou seu crescimento tanto na qualidade dos efeitos de maquiagem que sua equipe da KNB EFX Group consegue produzir, quanto no controle criativo e organizacional da série. Na direção, derrapa em pouquíssimos momentos. O tão criticado “cliffhang” em que optou por terminar a ultima temporada (gerando todo o marketing de expectativa quanto ao personagem que morreria) foi utilizado porque funciona; é uma técnica tão antiga que remonta à literatura de folhetim, uma das mídias onde o gênero horror mais se desenvolveu e perpetuou. Esse “gancho” é uma técnica narrativa que não deve ser criticada quando se opta por assistir um formato seriado. Quem não quer ganchos deveria ir somente ao cinema – essa sim, uma mídia plausível de ser criticada pelos ganchos para continuações, o que vem sendo utilizado à exaustão desde que a moda das adaptações de livros seriados implantou o modelo e desde que o universo de quadrinhos da Marvel se instaurou no cinema.

Mais que gerar marketing para a série (o que já garantiu o contrato para uma oitava temporada), o cliffhang gerou a tensão esperada e contribuiu também para o choque que todos tiveram com as Lucilladas que Steven Yeun, pelo visto nos bastidores, levou numa boa. O mais legal é que Nicotero não está tendo medo de acompanhar a violência gráfica dos quadrinhos, e isso é visível em cada escolha da maquiagem ou dos ângulos de câmera, assim como na permanência dessas imagens em tela, que ultrapassa o ritmo de leitura dos quadrinhos pra garantir a imersão emocional devida em um formato audiovisual. Sendo assim, os novos rumos da série prometem ainda mais para os fãs do terror, visto que Lucille está com sede, e ela é uma vampira…

 

Saul Mendez Filho para o Gore Bahia, 28/10/2016

1 Comentário

  1. […] a Greg Nicotero e sua equipe da KNB EFX. Como sempre, o trabalho dessa equipe responsável por The Walking Dead é primoroso. O visual do filme também é excepcional: Filmado com uma CANON C300 – uma das […]

    Curtir


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