THE NEIGHBOR foge dos rótulos e surpreende!

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Neste ano em que Fede Alvarez nos trouxe o excelente Don’t Breathe, em menor escala de marketing uma pérola semelhante estava sendo lançada: The Neighbor, mais um filme com a parceria do diretor Marcus Dunstan em sua escrita conjunta com Patrick Melton. Eles já realizaram O Colecionador de Corpos (The Collector, 2009) e O Colecionador de Corpos 2 (The Collection, 2012), dois filmes muito bons e semelhantemente desafiadores, além de serem os responsáveis pela franquia Jogos Mortais do quarto ao sétimo e derradeiro filme. Ambos já foram até convidados a escrever um roteiro para Halloween Returns, que ajustaria as engrenagens da franquia após o desastre da refilmagem de Rob Zombie – roteiro que existe, porém o projeto não foi adiante.

A sinopse de The Neighbor pode ser, por si só, um spoiler, visto que a ideia se sustenta sob os próprios pés como uma grande sacada. No filme, um casal envolvido com o tráfico de drogas tenta realizar seu ultimo serviço, pra completar a grana que estão guardando e abandonar a vida criminosa. No entanto, o plano deve ser extremamente sigiloso, pois o chefão do tráfico não vai gostar nada de ter seu esquema temporariamente interrompido. Pra piorar a situação, o único vizinho do casal no bairro afastado parece estranho, podendo estar envolvido também em algo ilícito, talvez pior… e não está gostando nada de estar sendo observado tão de perto. As tensões começam a crescer por todos os lados, e a situação desemboca em um dos roteiros mais criativos do ano. (spoilers ahead)

DOIS VIZINHOS, DOIS MUNDOS

Marcus Dunstan e Patrick Melton conseguiram misturar em seu roteiro pelo menos dois grandes clássicos do cinema: O suspense de mistério e crime, Janela Indiscreta (Rear Window, 1954) de Hitchcock, e o conflito de duas famílias que culmina em sangue, Quadrilha de Sádicos (The Hills Have Eyes, 1977) de Wes Craven. As engrenagens que fazem os filmes desses dois diretores funcionarem estão todas presentes em The Neighbor, aliadas à fotografia de qualidade e ao nível de ação e violência que já presenciamos em The Collector/The Collection. Como resultado, temos um filme que não explica muito mas fornece o bastante para que se compreenda que não há mocinho e não há vilão por completo. Apenas torcemos pelo casal, porque o drama está sendo narrado a partir da perspectiva de suas vidas, e não da vida dos outros.

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Ainda que permeado de falhas plausíveis em um filme que procura fugir de um formato padrão e com uma complexidade difícil de trabalhar pela própria natureza da ideia, Dunstan opta por focar no drama de seus personagens principais e no fornecimento de uma experiência gratificante de entretenimento; muitas questões ficam por ser abordadas, mas o que se assiste em nenhum momento deixa de ser interessante ou de entreter da forma devida, com sequências de ação que envolvem e atuações vigorosas de Josh Stewart (Também de The Collector/The Collection) e Alex Essoe, garota revelação dos filmes de horror.

Essoe é a atriz principal da pérola Starry Eyes (2014), filme sólido de horror disponível no Netflix, sob a direção de Kevin Kolsch, provavelmente um dos melhores dos últimos anos. Basta assistir a alguns minutos de sua atuação nesse filme para saber do que estamos falando. Até o mestre Guillermo de Toro ressaltou, em sua conta do Twitter, a qualidade do filme e da atuação. Atualmente ela também é a atriz do curta-metragem de horror THE HOME (de L. Gustavo Cooper), que faz parte da seleção oficial de SITGES 2016 e que já foi agraciado com ótimas críticas em sua passagem por vários festivais do gênero (Fantastic Fest, Brooklyn Horror Film Festival, Mayhem Film Festival, Spooky Empire 2016, etc.). Notícias indicam que com esse curta acontecerá o que já aconteceu com outros como Mama e Lights Out: tornar-se a base para um longa-metragem a ser lançado nos próximos anos. De qualquer forma, os méritos de Alex Essoe só crescem e sua atuação em The Neighbor é mais um desses momentos de qualidade que ela propicia aos fãs do terror.

No mais, a expectativa é que a dupla Dunstan/Melton consigam bastante feedback e que financiar um próximo filme com a mesma qualidade. Que mantenham suas mentes focadas nisso que eles conseguiram fazer até hoje: fugir dos rótulos e surpreender, nem que para isso pulem algumas fogueiras e se queimem de vez em quando. É um sopro de oxigênio quando o cinema norte-americano nos apresenta mais que refilmagens, adaptações e sequências, e esses dois estão em alta na correnteza contrária.

Saul Mendez Filho para o Gore Bahia, 28/10/2016

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