Os fantasmas de Oz Perkins

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O background do diretor Osgood Perkins ou Oz Perkins, como é geralmente chamado, é muito peculiar. Neto do ator Osgood Perkins (de onde vem seu nome), rosto conhecido de filmes dos anos 30 como o clássico Scarface, e filho do icônico ator Anthony Perkins – o eterno Norman Bates de Psicose. Oz Perkins começou a atuar, como seu pai e seu avô, ainda pequeno, quando interpretou um jovem Norman Bates nos flashbacks de Psicose 2. Sua mãe, a fotógrafa Berry Berenson, atuou no Cat People de Paul Schrader (1982) chegando até a contracenar com o próprio marido e com atores como Jeff Bridges em outras produções. Já viúva em 2001, morreu no 11 de Setembro dentro de um dos aviões que se chocaram com o World Trade Center. Oz Perkins tem ainda um irmão mais novo chamado Elvis, nome que foi dado por Anthony Perkins, que era fã do cantor americano. Elvis Perkins hoje é cantor folk e também compôs para os dois filmes de Oz: A revelação February (re-entitulado como The Blackcoat’s Daughter), de 2015, e O Último Capítulo (I Am the Pretty Thing that Lives in the House, 2016), produzido pela Netflix.

É possível dizer que o ritmo lento e a subjetividade silenciosa dos personagens nos filmes de Oz Perkins condizem, inclusive, com a trilha – e, sem ela, não teríamos um resultado tão coerente. Satisfazendo ou não os olhares mais minuciosos ou as maiores demandas de entretenimento do gênero ao abraçar um estilo minimalista ou “moderno”, é inegável a qualidade do som tanto em February quanto em O Último Capítulo. Se um espectador não enxergar a beleza na composição das imagens ou na tentativa de construção de uma história por parte de Oz Perkins, o eficiente trabalho de seu irmão Elvis nas composições e as escolhas do supervisor e editor de som Zed Starkovich, por sua vez, se fazem ouvir.

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Essa eficácia que já se mostrou tão importante em obras como Cidade dos Sonhos (Mullholland Drive, 2001) de David Lynch – em sua parceria eterna com Angelo Badalamenti – é hoje, infelizmente, um dos elementos mais desprezados do cinema. Poderosa quando bem trabalhada, a trilha faz um pacto com a obra e é desse verdadeiro romance que nasce um filme de horror memorável. Quando a trilha vem recheada de culto ao pop, algo falha. Nem todos sabem utilizar a música comercial a favor do filme, como Tarantino e Danny Boyle conseguiram nos anos 90. Os filmes de Oz Perkins optam pelo caminho da produção original tanto em som quanto em imagem, nem que para isso corram o risco de falhar. E, no mínimo, o som faz de seus filmes dois presentes aos fãs da narrativa gótica no cinema.

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Para os aficionados pela literatura gótica e romances de mistério, O Último Capítulo é um prato cheio. É a clássica história de fantasmas por excelência. Não quer ser, em nenhum momento, uma história de grandes reviravoltas ou finais surpreendentes, como O Sexto Sentido (Sixth Sense, 1999) ou Os Outros (The Others, 2001); não quer também ser o filme de assombração do verão, recheado de jump scares. É, em estrutura e composição, um conto gótico de fantasmas. Para tanto, é preciso retomar as obras da literatura inglesa de 1800, dos pré-modernos, de Hawthorne a Irving, de Blackwood a Le Fanu. Da mesma forma, porém com uma estrutura moderna, February trabalha sobre as mesmas referências literárias, dando a entender que se trata de um filme de fantasmas aquilo que vem a se tornar uma obra de possessão demoníaca e assassinato. Muitas escolhas aqui relembram o mergulho no horror de Kiyoshi Kurosawa em Kairo (2001), também conhecido como Pulse. Embora esse filme tenha perdido sua eficácia após os estragos feitos pelas refilmagens americanas e pelo próprio abuso descontrolado do mercado japonês com o J-Horror, ele ainda é um exemplo de arte minimalista cujo resultado é, ao mesmo tempo, belo e assustador.

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Se tratando de beleza, Oz Perkins também entende que não só de ângulos e detalhes vive sua composição de imagem. A escolha das atrizes é sempre certeira e sua primeira demanda é visual. Não à toa, desfilam pela tela Lucy Boynton, Emma Roberts (Sobrinha de Julia Roberts, atriz de American Horror Story), Kiernan Shipka (Que interpretou Sally Draper em Mad Men), Erin Boyes, Ruth Wilson – e até mesmo para representar uma escritora idosa em O Ultimo Capítulo, Perkins tira da manga Paula Prentiss, linda atriz dos anos 60/70, como pode ser visto no cômico What’s new, Pussycat (1965) que leva o roteiro de Woody Allen e é estrelado por Peter Sellers. É fato ainda que, antes de Paula Prentiss, a aposta de Perkins era que Debbie Harry (Da eternizada banda new wave Blondie e do também eterno Videodrome de Cronenberg) atuasse no papel.

Voltando ao fantasmagórico, Oz Perkins destila uma saudosa melancolia pessoal em O Ultimo Capítulo ao inserir referências a seu pai ao longo do filme. A música de Dinah Shore que toca várias vezes (“You Keep Coming Back Like a Song”), além de fazer referência ao fantasma de uma lembrança que “continua voltando como uma música” – o que tem ligação direta com a forma como os fantasmas são encarados no filme, como uma vibração que emana da casa, como algo que está lá e nunca mais irá embora -, é uma canção famosa que já foi interpretada por Bing Crosby, Frank Sinatra e… Anthony Perkins. Ainda, durante uma sequência onde a personagem assiste a uma velha VHS, o filme exibido é Sublime Tentação (Friendly Persuasion, 1956), estrelado por… Anthony Perkins. E não dá pra ser mais fantasmagórico do que isso.

Saul Mendez Filho para o Gore Bahia, 11/11/2016

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1 Comentário

  1. perkins here. i’d love an english translation of this if possible. thank you for your kindness.

    O P

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