BLACK MIRROR – Muito a dizer, muito a analisar.

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Quando a terceira temporada de Black Mirror foi lançada pela Netflix, a internet de um dia para o outro se tornou fã em peso da série. Por mais pesadas que sejam as críticas do criador Charlie Brooker em suas histórias, e por mais que a carapuça sirva, a atenção esteve brevemente voltada para Black Mirror. A série existe desde 2011, produzida para o Channel 4 britânico (cujo foco é primordialmente cultura e educação, estando ligada de forma mista ao governo da UK), teve uma segunda temporada produzida em 2013 e um especial de natal produzido em 2014. E agora, em 2016, cinco anos após o início, a série passa a ser financiada por uma mídia 100% focada no capital e, pela primeira vez também, traz não só 6 episódios novos como que um deles é um filme de quase uma hora e meia. Antes disso, o máximo de possibilidade de um investimento e exposição tão abruptamente gigantescos assim para a série era o interesse de Robert Downey Jr. de tornar o episódio “The Entire History of You” (S1/E3) em um longa-metragem.

No entanto, com tudo o que a série tem a dizer, tanta gente boa envolvida na produção dos episódios e tantas referências, a internet esteve recheada de matérias rasas e alardes pouco construtivos, tanto para elogiar quanto para criticar. Charlie Brooker, em entrevista no Channel 4, citou que seu interesse ao criar a série em 2011 veio de uma necessidade que ele via na programação televisiva por aquele tipo de conteúdo. O exemplo desse conteúdo ao qual ele se referia foi o episódio “Time Enough at Last” (S1/E8) da série Twilight Zone (Além da Imaginação) de 1959. Nesse conto, o personagem Henry Bemis é um homem solitário que ama os livros, mas que em várias situações é impedido de realizar suas leituras e sofre com o julgamento de todos que o conhecem. Essa crítica ao anti-intelectualismo acaba se tornando uma história de ficção pós-apocalíptica, quando uma explosão torna Bemis verdadeiramente um solitário, não por escolha, mas por falta de opção. De início, ele se desespera; mas logo depois percebe que terá tempo de sobra para ler todos os livros que ficaram a salvo da explosão. Assim pensa até o momento em que seus óculos caem e a leitura se torna uma realidade impossível. O exemplo desse conto de crítica social onde a tecnologia tem um fator crucial de dependência (os livros, compêndios de códigos que tornam Bemis uma pessoa alheia ao mundo real; os óculos, que o tornam apto a ler os códigos) é, realmente, a maior referência possível para Black Mirror.

Todos esses temas não são alheios a Brooker, que trabalhou por dez anos em uma coluna do jornal The Guardian voltada para a crítica da qualidade geral da produção televisiva no país. Isso quer dizer que ele policiava a qualidade geral dessa mídia – e que gostava tanto disso que ainda fez mais trabalhos sob a mesma temática, um deles é um documentário PARA A TV em cinco partes, intitulado “How TV Ruined Your Life” Ou “Como a TV Arruinou sua Vida” (2011); outro é a página TV GO HOME, uma paródia que imita um caderno especial de jornal com a programação televisiva e aproveita o formato para, metalinguisticamente, criticar a TV à vontade. Brooker só encerrou sua coluna no The Guardian quando percebeu que, quanto mais trabalhava inserido na produção para TV, suas críticas tornavam sua vida um tanto pesada de viver pelos corredores.

O clima de horror crítico que observamos em Black Mirror, inclusive, não é um dos primeiros criados por Charlie Brooker para a TV. Ele também foi o responsável em 2008 pela quase-premiada minissérie Dead Set, que se utilizou de uma campanha viral pós Big Brother na Inglaterra para exibir seus cinco episódios cuja história se passava na mesma casa do reality show. Ali, um grupo de participantes ficcionais do reality se viam trancados na casa enquanto, fora dela, a sociedade era consumida em um apocalipse zumbi. Sendo assim, se viam literalmente trancados enquanto os espectadores ficavam, literalmente, zumbificados. Humor ácido como o observado da primeira à terceira temporada de Black Mirror.

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Perpassando a deturpação do conceito de política, o surgimento de necessidades pessoais ridículas e muito, mas muito apedrejamento social, a série consegue produzir pequenas obras de ficção científica que vão do cômico ao mais puro horror psicológico. Entre os diretores, vários são nomes conhecidos do cenário de cinema/TV britânico:

Carl Tibbetts de Retreat (2011) assina “White Christmas” (S2/E4), o especial de natal estrelado por Josh Hamm (o Don Draper de Mad Men), e também “White Bear” (S2/E2), um episódio que nos deixa a mercê de um citacionismo sem sentido de filmes de horror, até que as coisas se encaixam e o brilhantismo da série se mostra mais presente que nunca.

James Watkins de Sem Saída (Eden Lake, 2008), A Mulher de Preto (The Woman in Black, 2012) e Abismo do Medo 2 (The Descent part 2, 2009), dirige o tenso “Shut Up and Dance” (S3/E3), realizando, como sempre, um trabalho digno de palmas.

Otto Bathurst, que já esteve na direção de episódios da série Urban Gothic (2000), também focada em contos de horror, é o responsável por “The National Anthem” (S1/E1), o pesado episódio que dá o pontapé à primeira temporada da série.

James Hawes, diretor recorrente da ótima – porém encerrada – série gótica Penny Dreadful, assina “Hated in the Nation” (S3/E6), o longa-metragem policial cheio de abelhas eletrônicas estrelado pela eterna Kelly McDonald de Trainspotting.

Pra começar a nova empreitada junto à Netflix, Charlie Brooker já começa trabalhando com o ilustre Joe Wright, diretor da famosa adaptação de Orgulho e Preconceito (Pride and Prejudice, 2005), o que em nada se faz superior à qualidade já presente em todas as temporadas da série, mas que garante um resultado muito divertido e ácido em “Nosedive” (S3/E1).

Porém, as atenções nesta temporada são todas do americano Dan Trachtenberg, diretor da ótima retomada de J. J. Abrams para sua franquia em Rua Cloverfield 10 (10 Cloverfield Lane). Ele dirige um excepcional episódio sobre um game virtual de survival horror em “Playtest” (S3/E2). Aqui a série apresenta uma amálgama de tudo que já trouxe de bom em sua longa existência em anos (porém curta em episódios), acrescentando uma pitada interessante de efeitos de computação gráfica que condizem com a história e agradam mais do que uma sessão de cinema anda agradando ultimamente. Wyatt Russell (filho do lendário Kurt Russell), dá um espetáculo interpretando o ingênuo rapaz que aceita participar de um teste da empresa Saito-Gemu. Sua ingenuidade é explícita desde as primeiras cenas, que enfocam seu jeito infantil de observar a vida. Essa leveza é rapidamente quebrada em um dos piores pesadelos que a série já apresentou ao longo das temporadas.

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A principal citação neste episódio é o pai dos survival games, Resident Evil e seu criador Shinji Mikami, de quem os fãs sempre esperam um “novo nível de horror”. O mais recente jogo criado por Mikami foi o aterrorizante The Evil Within, que apesar de severas críticas foi muito aclamado e terá uma possível continuação. Quanto ao game que o personagem de Wyatt Russel encara na Saito-Gemu, no entanto, é algo muito mais palpável. Saito-Gemu é uma forma japonesa da dizer Sight-Games, que seriam “Jogos de visão”. Assim, a empresa realiza uma micro-cirurgia para colocar o protótipo de teste do jogo dentro do cérebro dos voluntários, e este funciona se adaptando às suas memórias para ataca-las com visões daquilo que mais temem. Russell inicia sua viagem com uma pequena aranha semelhante à que assistiu em seu tablet no avião (“Big Ass Spider!”, ou “Maldita Aranha Gigante!” filme de 2013 dirigido por Mike Mendez, disponível no Netflix), mas logo as alucinações crescem e ele enfrenta uma grande aranha com cabeça humana, citando diretamente The Thing de John Carpenter (“O Enigma de Outro Mundo”, 1982), filme onde seu pai Kurt Russell enfrente o mesmo tipo de criatura. Genialidade bastante? Apenas mais um episódio dessa série recheada de conteúdo e referências.

Mesmo dividindo o brilhantismo da série com múltiplos diretores, Charlie Brooker faz questão de escrever os argumentos e roteiros (ainda que alguns deles sejam escritos em conjunto com outros roteiristas), o que também atesta pela qualidade do material. Isso garante a existência, inclusive, de auto-referências, como o símbolo do White Bear que aparece nas plaquinhas do teste na Saito-Gemu, e como a música “Anyone who knows what love is (will understand)” de Irma Thomas, que é tocada/cantada em vários episódios após seu aparecimento importante no segundo episódio da primeira temporada. O episódio campeão em auto-referências até hoje foi, claro, o especial de natal “White Christmas”, que além de referenciar a música, referencia um comercial do show de calouros Hot Shots e um teste de gravidez presente no primeiro episódio da segunda temporada – um dos mais fantasmagóricos. Esses são elementos que só tendem a tornar a série mais e mais falada, seja por alto ou com a devida profundidade; Afinal, em uma época de impessoalidade, quanto mais autoral uma obra, mais ela tem a dizer, e mais a se analisar.

 

Saul Mendez Filho para o Gore Bahia, 17/11/2016

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Muito antes de Jason Vorhees, o dia já causava tensão. Seu nome vem da deusa nórdica da fertilidade, Frigga, cujo culto foi considerado paganismo pelos cristãos. Diz-se que Frigga se reunia com mais onze mulheres para adorar ao diabo, décimo terceiro integrante do conciliábulo. Desde então, o dia de Frigga/Friday/Sexta foi assim nomeado no calendário como o dia das "bruxas". Ainda para os nórdicos, consta que Loki, num banquete em Valhalla, chegou em meio aos doze presentes (sem ter sido convidado) com o plano de matar Baldur, o preferido da galera. Qualquer semelhança com Judas Iscariotes, décimo terceiro em meio aos seus onze colegas apóstolos e Jesus de Nazaré, é mera coincidência.

Antropofagia cultural ou não, tomem muito cuidado com a Parascavedecatriafobia e bom happy hour a todos do GoreBahia!! Arte: Blair Sayer (www.shirtoid.com)

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