THE CANAL (2014): Quando a Irlanda Paquera o Japão.

the_canal_post

A Irlanda, em termos de produção de horror, ainda é a irmã mais jovem da Grã Bretanha. A ilha possui expoentes fortes como Isolation (2005), Let Us Prey (2014), os filmes de vampiro de Neil Jordan – Entrevista com o Vampiro (Interview With the Vampire, 1994) e Byzantium (2012) – além de ser a terra do personagem de terror Leprechaun e do Dublinense Bram Stoker, que tatuou de vez, através da literatura, os sanguessugas na pele da cultura popular. O filme A Maldição da Floresta (The Hallow, 2015), grande ganhador do Screamfest 2015 e uma das melhores pedidas a chegar recentemente no Netflix, foi um dos exemplos do poder irlandês a atravessar os mares. Ainda assim, o cinema de horror na Irlanda procura por uma voz própria e não produz tanto no gênero quanto seus irmãos ingleses.

Um bom exemplo do que pode emergir de lá surge em The Canal (2014), curiosamente nunca distribuído no Brasil, porém lançado ainda neste ano de 2016 nos cinemas hermanos da Argentina. O filme fez sua estréia em 2014 no festival de Tribeca, ganhando o prêmio de filme mais assustador no HorrorGuts UK Horrors Award e, no ano seguinte, arrebatando o prêmio de melhor ator para Rupert Evans e uma indicação para melhor filme no renomado Fantasporto 2015.

the_canal_copyivan_pic_6

O diretor Ivan Kavanagh já havia mergulhado no gênero em 2007 no seu longa-metragem Tin Can Man. Curiosamente, a claustrofobia e as mulheres adúlteras são um fator comum entre suas duas obras; mais curiosamente ainda, quando entrevistado, o diretor disse que procura colocar em seus filmes “aquilo que mais o aterroriza”. O medo da traição, que ocupa uma parte considerável de tempo em The Canal – e a forma efetiva com que percebemos, juntamente com o personagem de Rupert Evans, as teias da mentira que o rodeiam – é um dos fatores que torna seu filme muito mais um horror psicológico do que um horror fantasmagórico.

Uma vez enterradas as desconfianças em uma bela cena filmada de dentro do caixão, onde a atriz Hannah Hoekstra descansa no papel da esposa morta (assassinato ou acidente?), os fantasmas do passado se tornam cada vez mais presentes. É aí que o horror intimista se transforma e observamos ecos de J-horror tomarem conta do filme. Embora Kavanagh referencie buscar um horror semelhante ao produzido atualmente por Ti West, é claramente no Japão que ele finca seus dentes vampíricos; é em Hideo Nakata que ele apoia suas bases não só estilísticas como no âmago contextual.

Letícia Weber Jarek, no ensaio “Espelhos d’água”, reflete muito bem sobre a cinematografia de horror moderno no japão. A mulher como figura central familiar e o horror que nasce da destruição da família; a água como elemento que liga o mundo dos vivos ao mundo dos mortos – em uma simbologia budista de ressurreição muito observável na biologia, onde o líquido amniótico envolve o feto no útero durante a gestação. Nesses filmes, a luta pela própria sanidade é a luta dos personagens – os fantasmas não trazem uma ameaça física de morte, mas uma ameaça de desequilíbrio e insanidade. Também a ligação dos fantasmas com o mundo técnico da captação em filme relembra ainda mais tudo o que foi desenvolvido a partir de Kiyoshi Kurosawa e Hideo Nakata. É apoiado nesses fatores que Kavanagh consegue desenvolver uma obra muito bem produzida que consegue ser perturbadora, mas que falha, em parte, justamente pelo ritmo que se força lento.

fangothecanal4

A edição de Robin Hill, conhecido pelo trabalho no já clássico Kill List (2011) de Ben Wheatley, possui como referência artística máxima Inverno de Sangue em Veneza (Don’t Look Now, 1973), de Nicolas Roeg, esse provavelmente uma referência também para Kurosawa e Nakata – no entanto, se reveste de um modernismo minimalista intrigante. O som, como seria de se esperar em um filme de fantasmagoria, tem papel fundamental. No entanto, o que mais chama a atenção ao longo de The Canal é sua metalinguística: Em uma genial cena inicial, o personagem principal (filmado de frente, como quem fala ao espectador) chama a atenção de jovens em uma sala de projeção ao dizer “vocês querem ver um filme de fantasmas?”… o filme a que se refere, sendo ele mesmo um arquivista, nada mais é que um documento histórico, mas ele retruca: “não deixa de ser um filme de fantasmas, afinal, todos que vocês irão assistir nele, hoje estão mortos”. A inevitabilidade de saber que os personagens que vemos nessa cena irão terminar o filme dessa maneira poderia comprometer o resultado. Mas não compromete.

canal-2

Em diversos momentos ao longo do filme, o personagem de Rupert Evans capta imagens com uma antiga câmera através da qual consegue capturar os fantasmas que habitam sua casa e o canal que corre em paralelo à sua rua (câmera que o cinematógrafo Piers McGrail alega ser de 1915 e que chegou a ser utilizada para registrar cenas da primeira guerra mundial). Em uma das cenas mais marcantes do filme, o personagem projeta as imagens que filmou e um buraco no meio da parede obscurece o local onde se projetaria a aparição. Neste momento, todos sabemos o que pode surgir dessa fusão entre o real e o projetado, e, no entanto, o medo não consegue sucumbir perante a inevitabilidade. Metalinguagem, certamente, é algo com o qual Ivan Kavanagh mostra trabalhar muito bem.

 

Saul Mendez Filho para o Gore Bahia, 11/12/2016

Anúncios

Deixe um comentário

Nenhum comentário ainda.

Comments RSS TrackBack Identifier URI

Manda uma ideia aí:

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s