O HORROR NU

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2017 iniciou e o tema do GoreBahia, pra começar o ano bem, é sexo e nudez: Partindo da polêmica dos nus femininos nos filmes de horror e indo até o erótico grotesco japonês; perpassando a canonização das scream queens e a propagação da união entre horror e nudez em filmes e revistas especializadas nas ultimas décadas do século passado; finalizando com o estranhíssimo mergulho de José Mojica Marins, mestre do horror brasileiro, no cinema pornográfico. O trem está pra sair, não saia dos trilhos…

Profissionais da serra Elétrica

Em 1988 Gunnar Hansen, o eterno Leatherface de Texas Chainsaw Massacre (1974), se vestiu completamente de preto e criou uma “seita da serra elétrica”. As seguidoras, por sua vez, não vestiam preto; ou desfilavam em lingerie vermelha, ou não vestiam nada, enquanto faziam os motores de suas lâminas rugirem em quartos de motel, despedaçando os clientes ávidos por sexo. Em um clima noir, o filme é narrado por um detetive particular cheio de tiradas cômicas que é contratado para encontrar uma garota (Linnea Quigley). Pouco a pouco ele se envolve em uma trama ligada às mortes perpetuadas pela seita de Hansen. Essa é a sinopse de Hollywood Chainsaw Hookers (1988), um dos exploitations mais adorados dos anos 80, que unia a paixão dos fãs do gênero por motosserras e a idolatria às musas seminuas do cinema de horror, aqui representadas por Linnea Quigley (que dançou full frontal em Return of the Living Dead, 1985) e Michelle Bauer, que fez sua carreira em produções B de cunho erótico como o cyberpunk Café Flesh (1982), alçando de vez o seu nome na indústria do horror ao aparecer completamente nua e brandindo uma motosserra em uma das primeiras sequências do filme.

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O padrão “filmes de horror e mulheres nuas” (horror flicks and naked chicks) pode ser observado em seu âmago na metalinguagem vouyer de filmes como A Tortura do Medo (Peeping Tom, 1960) e Psicose (Psycho, 1960), dentro de um gênero que, de forma antagônica e em dados gerais, possui um publico feminino maior que o masculino. O corpo feminino, no entanto, é explorado pelo cinema desde quando se tornou possível filmar, e desde quando a indústria cinematográfica existe, sempre forçando os limites da moral e da censura. No caso específico do horror, a confluência entre o apelo comercial do erotismo e o conceito de “sexo frágil” desemboca, curiosamente, na criação das “final girls” fortes e desafiadoras do subgênero slasher . Em todos os casos, prevalece um formato onde a vítima é do sexo feminino e sua fragilidade está exposta através de uma nudez vendável e dos gritos de sofrimento.

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A essas atrizes corajosas cabe o título de “scream queens”, carregado com orgulho por algumas e, ainda que rejeitado por outras, uma cicatriz que se torna eterna ao participar de uma obra canonizada pelos fãs. Um dos elementos mais simbólicos da indústria de horror, scream queens como as atrizes de Hollywood Chainsaw Hookers já foram alvo de revistas especializadas como GoreZone (1988-1994; 36 edições) e Scream Queens Illustrated (1993-1998 aprox.; 32 edições). Hoje, magazines na web mantém viva essa idolatria de playmate, como nas páginas JoBlo (com a seção Mistress of the Week em sua subpágina especializada Arrow in the Head); a hoje parada screamqueen.com (2000-2012); além de revistas especializadas que sobrevivem, como a Fangoria (1979 em diante), citarem – sempre que cabível – alguma scream queen, ainda que sem o posicionamento de uma revista masculina.

Entre a cruz e a espada

É de praxe ressaltar a dualidade da presença feminina no cinema de horror. O gênero pode se gabar de ser precursor na apresentação de personagens femininas fortes, decididas e cheias de si, além de serem na maioria das vezes personagens centrais com inteligência acima da média e psicológico bem explorado (enquanto personagens masculinos são, muitas vezes, caricaturais e ridicularizados). As nuances de sexualidade e repressão no universo feminino, trabalhadas de forma erudita mas com estilo no Repulsa ao Sexo (Repulsion, 1965) de Roman Polanski, estão no âmago de pelo menos 80% das obras de horror. Ao mesmo tempo, porém, essas personagens são exploradas em tela com o mesmo olhar erótico sobre o corpo feminino existente em qualquer filme comercial desde os primórdios do cinema. O diferencial talvez esteja no tratamento conferido pelo público: os fãs de horror não consideram simplesmente a nudez, mas a entrega da atriz ao gênero tanto quanto eles se entregam ao mesmo (para muitos o horror não é apenas um gênero, mas um lifestyle). Quanto mais uma atriz abraça o gênero e se esforça em seu papel, sem vaidades e preconceitos, mais positivo seu retorno por parte dos aficionados – algo que não é observado em qualquer outro nicho cinematográfico com a mesma potência. As scream queens se tornam, literalmente, rainhas de uma geração de fãs.

Na mídia geral, não faltam alardes quando alguma atriz famosa aparece nua em filme, o que pôde ser observado quando Katie Holmes tirou a roupa para o filme O Dom da Premonição (The Gift, 2000) de Sam Raimi – ou, ainda mais recente, quando Scarlett Johansson apareceu full frontal em Sob a Pele (Under the Skin, 2013) de Jonathan Glazer. No entanto, esse alarde é realizado por uma mídia torpe para um público que não cultua as atrizes e que não acompanha seus trabalhos de filme em filme – isso é aspecto específico da cultura que caracteriza os fãs do cinema de horror. Enquanto o publico geral está mais interessado em qualquer tipo de fofoca de celebridades que tenham seus corpos e suas vidas expostos, os fãs do horror acompanham seus ídolos tal qual headbangers louvam os ícones do Heavy Metal. Muito longe do desrespeito ou de qualquer diminuição, as scream queens são reconhecidas pelos fãs de horror, adoradas e aplaudidas, sempre convidadas especiais em eventos, mantendo sua fama além da idade: figuras como a lenda Cassandra Peterson (Elvira) e Barbara Crampton, por exemplo, de A Hora dos Mortos-Vivos (Re-Animator, 1985) e Do Além (From Beyond, 1986), ambos de Stuart Gordon; hoje, Crampton aparece em filmes do revival como Você é o Próximo (You’re Next, 2011), Ainda Estamos Aqui (We Are Still Here, 2015) e Beyond the Gates (2016) – sendo sempre reconhecida como um ícone e tendo sua presença reverenciada como um selo de autenticidade para os filmes.

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Ainda, é perceptível que a nudez feminina no horror não está relegada às produções de baixo custo, que são declaradamente exploitation, mas está presente em produções grandes e “sérias” cujo foco vai além do lucro – desde os tempos do já citado Psicose de Hitchcock, perpassando O Bebê de Rosemary (Rosemary’s Baby, 1968) de Polanski, filmes de DePalma como Carrie, a Estranha (Carrie, 1976) e Vestida para Matar (Dressed to Kill, 1980) e chegando aos clássicos modernos como o recente Corrente do Mal (It Follows, 2014). Essa nudez é sempre condizente com o contexto de uma obra de horror, apesar de em alguns casos menos relevantes (e de acordo com a apelação presente nos filmes exploitation de qualquer gênero) se tratar de apelo comercial gratuito. Até mesmo nesses casos, algum discurso interessante é capaz de se descortinar paralelamente ao objetivo erótico: em A Volta dos Mortos Vivos (Return of the Living Dead, 1985), a personagem “Trash”(Linnea Quigley) reflete, antes de iniciar uma sequência de striptease para os ávidos olhares masculinos: “Você já imaginou todas as formas possíveis de morrer? e já imaginou qual seria a pior delas?” (Original: “Do you ever wonder about all the different ways of dying? You know, violently? And wonder, like, what would be the most horrible way to die?”); o personagem masculino retruca que procura não pensar muito na morte, ao que ela prossegue: “Bom, para mim, a pior forma seria que um monte de homens velhos me rodeassem, e começassem a me morder e a me comer viva. Primeiramente, eles tirariam minhas roupas…” (Original: Well for me, the worst way would be for a bunch of old men to get around me, and start biting and eating me alive. First, they would tear off my clothes…). Reflexivo?

Enquanto isso, no Japão

A dialética Eros/Thanatos no horror perpassa expressões artísticas diversas como o Ero Guro Nansensu japonês (Erótico Grotesco Non-sense), que lança seus tentáculos da literatura de Edogawa Rampo (Taro Hirai) após a segunda guerra mundial para uma fase cinematográfica prolífica no final dos anos 60/início dos anos 70, principalmente pelas mãos do mestre Teruo Ishii. Muito do gênero extremamente é pautado em torturas femininas, deformações biológicas e desvios sexuais, com doses variáveis (presentes ou não) de GORE e escatologia. As experiências durante a invasão do território chinês na segunda guerra, principalmente as ocorrências da famosa unidade 731 – que objetivavam o desenvolvimento de armas biológicas – estimularam o florescimento da estética, muito focada nos limites do corpo. O estilo se fortalece com os registros históricos de Kinbaku (pai do bondage) e sadomasoquismo durante o shogunato na era Edo, e a história de sexo e castração retratada no filme Império dos Sentidos (Ai No Korida, 1976) de Nagisa Oshima . Hoje, o tema já foi explorado por Sion Sono em Strange Circus (Kimiô na Sâkasu, 2005) e por Takashi Miike com maestria. É de forma ainda mais acentuada explorado em mangás e animes, como no clássico A Lenda do Demônio (Chôjin densetsu Urotsukidôji, 1989) e na série hentai La Blue Girl de Toshio Maeda, que popularizou o tentacle rape – subgênero que utiliza uma técnica de erotização já imaginada pelos japoneses desde 1814 no hokusaiThe dream of the fisherman’s wife”. Todas essas obras chegaram ao ocidente, na era pré-internet, através de seus elementos diluídos nas obras de artistas como Paolo Eleuteri Serpieri (em seus quadrinhos de sci-fi erótico da personagem Druuna). Uma vez assimilados em trabalhos de artistas europeus, se tornava mais fácil a exportação para as américas. Ressaltam-se atualmente, nos mangás, os belos trabalhos de Suehiro Maruo e Hideo Yamamoto. No cinema – ainda que não sendo um representante de Ero Guro em si -, combinando erotismo e ação pulp, Gun Woman (2014), do diretor Kurando Mitsutaka, é o melhor exemplo do que os japoneses conseguem realizar quando unem a nudez feminina a litros e mais litros de sangue falso: é filme pra ocidental nenhum botar defeito.

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Mojicando além dos caixões

No Brasil, por sua vez – embora afastado do gênero horror – a descida de José Mojica Marins ao mundo das produções de sexo explícito em busca de lucro não diminuiu a criatividade e o olhar transgressor do autor. Zé do Caixão vive nas entranhas de Mojica e coordena seu olhar. Em “24 Horas de Sexo Explícito” (1985) (AKA “24 Horas de Sexo Ardente”), o olhar dos corpos nus é mais de estranheza do que de prazer. Para tanto, Mojica optou por realizar um anti-pornô: propositadamente utilizou atores e atrizes aquém do padrão de beleza como forma de criticar o gênero e o público capaz de pagar para ver tais coisas. A nudez, neste filme, foge ao erotismo e busca a aversão. No roteiro, o sexo é um ato exaustivo realizado em uma competição para contagem de pontos, onde os participantes acabam se cansando e perdendo suas ereções. Comparando esses aficionados a animais, insere zoofilia não-explicita: a atriz Vânia Burnier contracena com o cão “Jack”, nua e às claras, aquilo que o italiano Bestialità (1976) de Luigi Montefiori e Peter Skerl não ousou realizar. O auge de sua zoação acontece em “48 horas de Sexo Alucinante” (1987), onde a competição prolongada transmite ainda mais exaustão, chegando até ao ataque cardíaco de um dos personagens. A maratona está sendo filmada por uma “equipe técnica”, e a metalinguagem se faz presente ao mostrar a produção fictícia de um pornô. Durante a cena do cardíaco, Mojica declara, enquanto o homem estrebucha no chão com dores: “está tudo bem, não parem, continuem”. Assim, todos continuam a transar enquanto o homem morre, em meio às mesas de um banquete grego. A pontuação é computada em um PC por um homossexual vestido à moda de Calígula, mas apelidado de “Calíngua”. Calíngua come uma banana enquanto a câmera, em um momento inspirado, o enquadra entre as coxas de uma morena, para depois, em um jogo de profundidade focal, acompanhar a penetração do pênis que surge do extracampo.

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O momento em que “48 Horas de Sexo Alucinante” atinge sua máxima criativa, em tangente à indústria pornográfica onde se insere, é quando a personagem da sexóloga – que financia o filme dentro do filme – tem um flashback. Ela se vê na infância, assistindo aos bois copulando com vacas, quando sofre uma represália de sua mãe, que a surra com um galho de planta. O trauma faz com que peça aos produtores, Mojica e Mario Lima (ambos interpretando a si mesmos), que realizem seu sonho de transar com um touro, pois acredita que apenas assim conseguirá ter um orgasmo em sua vida. Isso serve de apoio para criar a associação que se segue: em vias de conseguir ludibriar a sexóloga, Mojica cria uma “vaca falsa”: um compartimento em forma de vaca onde a mulher entra e fica escondida, apenas com uma abertura por onde deverá esperar pelo touro. No entanto, quem vai até a vaca falsa é um ator, vestido de touro, que a monta sobre o compartimento (Nesse momento, assistimos a um homem e uma mulher transando vestidos de animais). Quando a transa termina, a sexóloga – que estava no escuro acreditando ser penetrada por um touro – alcança o sonhado orgasmo. Psicologia pura, crítica clara: por vezes nos vestimos de animais. Até em seu momento nada artístico, Mojica não consegue retrair completamente sua arte. Para acompanhar as imagens, a trilha do filme vai de uma cômica apresentação musical completa do cantor de tango Carlos Lombardi interpretando o bolero “El Dia que me Quieras” a escolhas surreais que perpassam “I’d Love You to Want Me” do cantor Lobo (conhecida no Brasil como “Ela Não Está Aqui” de KLB); o piano melancólico da “Gymnopédie nº1” de Erik Satie; “Trans Europa Express” do KRAFTWERK; e, mais denunciadora do que tudo, a música dos créditos iniciais, que cria uma amálgama entre o inconfundível contrabaixo slap de um pornô setentista e nada mais nada menos do que “Tubular Bells” do Mike Oldfield – o clássico toque de piano que marcou a todos como a trilha de O Exorcista (The Exorcist, 1973) de William Friedkin…

…E a viagem, como de costume, está apenas começando. Não saia dos trilhos…

 

Saul Mendez para o GoreBahia, 12/01/2017

 

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