UMA AUTÓPSIA DOS ANOS 90: O Povo contra o Brinquedo Assassino

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O mundo acompanhou ao longo da década de 1990 uma crescente paranoia a respeito da influência das mídias sobre os indivíduos, especificamente o reflexo social do consumo de filmes e games violentos. Esse questionamento não era tão novo assim em alguns locais, como na terra da rainha Elizabeth II, onde a lei que regulamentava os “Video Nasties” estava em ação desde 1984 (“videocassetes obscenos”, ato legislativo que se amparava no “Obscene Publications Act” de 1959). No entanto, ao redor do mundo, a discussão se amplificou com o súbito acesso irrestrito a conteúdo (esta foi a década onde realmente o VHS alcançou seu auge nas casas das classes A, B e C, e a TV por assinatura se espalhou como gripe pela classe média), aliado à grande evolução e ressurgimento dos videogames, de forma abrupta e com forte imersão dos jovens (a incompreensão dos mais velhos perante jogos como Mortal Kombat, por exemplo, reflete o impasse de gerações da época). Curiosamente, um crime real adicionou o tempero que faltava para a crescente paranoia mundial: o caso do pequeno britânico James Bulger, que morreu aos seus dois anos de idade assassinado por duas crianças de dez anos, em 1993. Foi nessa época em que surgiram filmes como O Anjo Malvado (The Good Son, 1993), onde Macaulay Culkin emprestava a icônica imagem do esperto e carismático “Kevin” de Esqueceram de Mim (Home Alone, 1990; Home Alone 2, 1992) para se tornar nas telonas um personagem maquiavélico, um assassino mirim. A cama estava feita.

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O caso de James Bulger foi um drama amplamente divulgado, em detalhes, por toda a mídia mundial. O crime aconteceu em um dia 12 de Fevereiro, e o corpo foi encontrado dois dias depois, exatamente no Valentines Day (Dia dos Namorados) americano. As duas crianças suspeitas (Jon Venables e Robert Thompson), posteriormente declaradas culpadas, foram flagradas pelas câmeras de segurança de um shopping onde sequestraram o menor James Bulger, levando-o de mãos dadas como a um irmão mais novo, e partiram em uma caminhada seguida de tortura e morte à beira de uma linha de trem. O caso traz muita semelhança com um cruel conto de Roald Dahl (que criou o clássico Charlie e a Fábrica de Chocolate), chamado “The Swan” (O Cisne). No entanto, o que chamou a atenção da mídia ao longo dos nove meses de julgamento foram as semelhanças encontradas com o filme Brinquedo Assassino 3 (Child’s Play 3, 1991), o que reforçou a lei dos Video Nasties na Inglaterra.

 

Chucky, o Brinquedo Assassino

 

Criado por Don Mancini, o boneco Chucky surgiu inicialmente no filme Child’s Play, de 1988. No filme, em uma fuga da polícia e prevendo sua morte após um tiroteio, o serial killer Charles Lee Ray – o “Estrangulador de Lakeshore” – utiliza seus conhecimentos de vodu para transferir sua alma a um boneco da loja de brinquedos onde se refugiou. Após essa situação, se vê preso às regras do feitiço, que delimitam: só poderá transferir sua alma novamente se for para o corpo da primeira pessoa que o reconhecer humano. Isso o obriga a uma caça obsessiva ao garotinho Andy Barclay, que, desse primeiro momento até o terceiro filme da franquia, vira um jovem de dezesseis anos. O primeiro filme contou com a direção de Tom Holland, de A Hora do Espanto (Fright Night, 1985); no entanto, os filmes seguintes tiveram a direção passando de mão em mão enquanto continuavam sendo escritos pelo criador Don Mancini, que assumiu a direção nos últimos dois filmes da franquia (Seed of Chucky, 2004; Curse of Chucky, 2013).

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Enquanto o primeiro filme possuía um caráter sério de horror e suspense, do segundo filme em diante Chucky se torna mais sarcástico e as situações cômicas chegam ao limite, com GORE e piadas atingindo ápices, sem sutilezas. O auge dessa formatação foi alcançado em Seed of Chucky (2004), onde acompanhamos a surreal crise de identidade de um boneco – filho de Chucky e sua noiva Tiffany – citação direta a Glen or Glenda (1953), de Ed Wood. A metalinguagem desse horror-comédia brinca com a atriz Jennifer Tilly / Tiffany, que se tornou uma “queridinha” da franquia e dos fãs do horror, e as piadas se estendem pelo mundo pop até Britney Spears. Totalmente distante dessa formatação, Curse of Chucky, de 2013 (nove anos depois), propõe um vitorioso retorno ao clima de horror e suspense do primeiro filme, servindo como uma reintrodução para o personagem Andy Barclay e preparando o terreno para o ambicioso Cult of Chucky, que tem seu lançamento previsto para 2017. Ainda que levado novamente a sério, Chucky veio mantendo sua personalidade e suas piadas infames – o ator Brad Douriff emprestou sua voz e sua cara ao boneco em todos os filmes da franquia, sem exceção, estando literalmente “de alma presa”. É esse humor negro que permeia diversos shows anuais no evento Halloween Horror Nights do estúdio Universal, focados no personagem e no universo dos filmes. A presença marcante em todo o universo da indústria cultural comprova que Chucky se tornou um ícone do horror. O “Chucky’s Insult Emporium” (Empório de Insultos do Chucky) foi um dos espetáculos mais conhecidos no Halloween Horror Nights, enquanto que, em 2009, o labirinto “Chucky’s Funhouse”, no mesmo evento, foi inspirado exatamente no trem-fantasma do final de Brinquedo Assassino 3.

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Antes de Chucky aparecer, Stuart Gordon já tinha dado o start para os filmes oitentistas com brinquedos em Bonecas Macabras (Dolls, 1987), e, após Chucky dar as caras, uma das franquias mais divertidas das tardes do saudoso Cine Trash do canal Band nasceu: O Mestre dos Brinquedos (Puppetmaster, 1989). De certa forma, Poltergeist (1982) já previa essa tendência do horror. Em uma assustadora ligação com a realidade, o design do boneco Chucky foi inspirado pelo boneco real My Buddy, que foi uma estratégia da indústria de brinquedos para a criação de uma “boneca” masculina – feita à semelhança dos bonecos de bebês direcionados para o publico feminino. O boneco do Fofão no Brasil, com sua camisa listrada e seu macacão, refletia essa tendência – e toda a paranoia vodu ligada ao boneco aparenta possuir alguma relação com a influência popular do filme naqueles anos. O fator de Andy Barclay, uma criança, ser o personagem principal e herói da trama – carregando o fardo de saber que seu boneco possuía vida e estava matando pessoas – certamente estimulava, na época, toda a curiosidade necessária entre os espectadores mirins. Ainda em ligação com a realidade, o nome do personagem Charles Lee Ray foi inspirado em uma trindade de serial killers reais: Charles Manson, Lee Harvey Oswald e James Earl Ray (coincidentemente, três idealistas – dois deles responsáveis pelas mortes de John F. Kennedy e de Martin Luther King).

 

Do Filme ao Crime

 

O terceiro filme da franquia, Child’s Play 3, é o mais fraco de todos – com uma direção relapsa e roteiro sem ritmo, principalmente ao longo de seu desenvolvimento. A abertura é grandiosa, mas o recheio é insosso. No entanto, ao inserir o adolescente Andy Barclay em um reformatório militar, o filme se sustenta por partir de uma nova e inesperada premissa e as cenas de bullying parecem extraídas da primeira metade de Nascido Para Matar (Full Metal Jacket, 1987) de Stanley Kubrick. O universo do filme é o de jovens que estão em constante tensão uns com os outros, onde a convivência saudável não existe. O fator que, segundo a mídia, ligava o assassinato de James Bulger ao filme era principalmente que o pai de Jon Venables havia alugado a VHS duas semanas antes do crime. Assim, Venables e Thompson poderiam ter assistido à fita e se inspirado nela. Haviam, também, outros fatores: No shopping, enquanto procuravam por sua vítima, os dois garotos roubaram pilhas e uma lata de spray azul. O corpo de James Bulger apresentava, além de traços de abuso, manchas dessa mesma tinta azul. No primeiro filme da franquia Brinquedo Assassino, a cena em que a mãe passa a acreditar nos relatos de seu filho Andy é quando descobre que Chucky esteve funcionando sem pilhas, o que se torna lugar-comum; já em Brinquedo Assassino 3, em meio a uma guerra simulada com balas de tinta azul (paintball), Chucky troca os cartuchos por balas de verdade, levando à morte de um jovem.

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No entanto, o alarde não cabia nos fatos: nenhum dos garotos confirmou ter assistido ao filme, e, por conta da separação dos pais, soube-se que Jon Venables sequer teve acesso à fita, pois ela estava em outra casa. Ainda, o rapto e assassinato da jovem Suzanne Capper (também na Inglaterra) um ano antes fortalecia previamente a repulsa ao filme e forçava os indicadores: aprisionada e torturada por sete dias por rapazes e garotas entre 18 e 25 anos de idade – e, por fim, queimada viva – Capper era obrigada constantemente a escutar uma música eletrônica chamada “Hi, I’m Chucky (Wanna Play)”, com samples sonoras do filme, em um fone de ouvido no volume máximo. Quando uma das algozes, Bernadette McNeilly, entrava no quarto para suas sessões de tortura, dizia: “Chucky’s coming to play” (“Chucky chegou para brincar”). Irônica e cheia de referências, enquanto Capper estava em chamas McNeilly cantou “Burn, Baby, Burn” (de The Trammps), clássico da era Disco – mas é um tanto difícil de considerar que a canção tenha sido qualquer influência para atear fogo em alguém. O serial killer Andrew Cunanan, que matou o designer de moda Gianni Versace em 1997, possuía uma extensa coleção de livros de C. S. Lewis, romancista responsável pela fantasia cristã “As Crônicas de Narnia”. A primeira vítima de Cunanan foi encontrada enrolada em um tapete, dentro de um armário; Se C. S. Lewis tivesse qualquer culpa nisso, seria necessário primeiro passar pelo filtro de uma mente doentia o bastante para se esquecer do Leão, da Feiticeira, e, por fim, deturpar o Guarda-roupa.

Mesmo com tantos olhares voltados para o que, por um breve momento, se tornou o “julgamento de Chucky”, outros filmes passaram pelo crivo da época, que insistia em culpar o cinema por atrocidades reais e psicopatias. Assassinos por Natureza (Natural Born Killers, 1994) – que corroborou com o zeitgeist da década ao criticar o excesso de TV que estava deturpando a mente dos jovens – acabou sendo considerado como influência para diversos crimes, da data de seu lançamento até sua ultima citação policial registrada em 2008. John Grisham, célebre autor de best-sellers, criticou com firmeza Oliver Stone por ter realizado um filme de forma tão “irresponsável” e por “incitar atos de violência”. Entre os casos mais famosos ligados ao filme estão o massacre de Columbine High School (este que também manchou a imagem de Matrix, 1999) e os tiroteios de Heath High School (1997), de onde surgiram citações incriminadoras também para os jogos Doom e Mortal Kombat, além do filme Diário de um Adolescente (The Basketball Diaries, 1995), drama que alçou Leonardo DiCaprio ao estrelato pré-Titanic.

 

Do Crime ao Filme

 

É inegável que 1990 foi a década que colocou os serial killers sob os holofotes do cinema de gênero, em uma incursão pela subcategoria do “horror policial” com O Silêncio dos Inocentes (Silence of the Lambs, 1991), Se7en (1995), e com o diálogo entre ficção/arte versus realidade presentes no confronto entre David Duchovny e Brad Pitt em Kalifornia (1993) – mais “anos 90”, impossível. Também é inegável que a realidade da década foi permeada de crimes hediondos. Para além das reais probabilidades de influência da ficção no comportamento, porém indo pela contramão da mesma via expressa, a atual série American Crime Story (ACS) nasce da ideia de converter casos reais em entretenimento. Em sua primeira temporada (The People v. O. J. Simpson, 2016), esbanja tensão ao recriar os bastidores do julgamento de um dos crimes mais icônicos da época, desta vez no outro lado do Atlântico – nos Estados Unidos. Considerada um spin-off da série American Horror Story (AHS), ACS já começou infinitamente melhor do que o que se esperava de Ryan Murphy e Brad Falchuk, que se mostram sempre criativos e audaciosos, porém desequilibrados quanto ao desenvolvimento de suas tramas em AHS. É justamente no equilíbrio desse desenvolvimento e na atenção aos detalhes (característica que a obra demanda, considerando os fatos criteriosos de um caso real) que do trote pra cavalgada o cavalo não sai da pista. O mistério (ou a falta dele) envolvendo o assassinato da ex-esposa de O. J. Simpson é tratado com minúcias que, mesmo não sendo gráficas, chocam e assustam muito mais do que a mera ficção poderia, como é o caso de Zodíaco (Zodiac, 2007), o melhor filme que David Fincher conseguiu realizar até hoje. A primeira temporada toma por base o livro The Run of His Life: The People v. O. J. Simpson de Jeffrey Toobins; as próximas temporadas anunciadas irão abordar, nesta ordem: o furacão Katrina (é um mistério qual será a abordagem exata, visto que a região foi palco de diversos crimes de violência ocorridos logo após a tempestade, mas provavelmente cobrirá o caso do tiroteio da ponte Danziger, onde policiais exterminaram civis afro-americanos seis dias após o desastre), o assassinato de Gianni Versace e o escândalo sexual de Bill Clinton. Todos terão um livro como base. O fato é que tudo correrá bem com American Crime Story se os detalhes da produção forem tão bem trabalhados quanto foram na primeira temporada – pois quem vivenciou os anos 90 consegue, ao assistir os dez episódios, quase viajar no tempo.

 

Saul Mendez Filho para o Gore Bahia, 15/02/2017

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