O HORROR NOS QUADRINHOS em Financiamento Coletivo

O crescimento dos quadrinhos nacionais independentes nos ultimos anos tem sido um caso espetacular que merece estudo. Desde quando eventos como CCXP e autores brasileiros como Rafael Albuquerque, Marcelo D’Salete, Quintanilha, Gabriel Bá e Fabio Moon começaram a chamar a atenção de um publico cada vez mais abrangente, os olhos se voltaram para o quadrinho nacional como nunca nas décadas anteriores. De lá para cá, aliados a métodos de financiamento coletivo como Catarse e Kickstarter, uma profusão de projetos puderam sair da mente para o papel. Além de se situar como um modelo mais vantajoso para os artistas, que possuem assim maior liberdade e obtém uma margem maior de lucro do que no antigo método à mercê de editoras e livrarias, o resultado não poderia ser mais relevante para nichos como o horror: tornam-se hoje possíveis todas as nuances de um conteúdo que está fora do alcance de visão das grandes linhas editoriais. E o público vai de encontro diretamente ao que gostaria de consumir.

O que estamos falando é o que Chris Anderson, ex-editor da revista Wired, popularizou tempos atrás como a “cauda longa”; em um gráfico de consumo por interesses, a soma dos menores é sempre maior do que o primeiro colocado. E comprova-se muito facilmente que os leitores de horror tem se mostrado prontos para apoiar projetos dentro daquilo que lhes dá prazer, em uma relação direta com quem produz. Projetos de boa recepção como “Coletânea VHS” organizado por Fernando Barone se unem à empreitada de novas editoras como a Draco, pioneira das adaptações de Howard Phillips Lovecraft no país com o bem sucedido “O Despertar de Cthulhu” e transversalmente através da adaptação de “O Rei Amarelo”, uma das referências na obra do autor.

Desfilam também hoje na produção do país obras de horror 100% brasileiro, abordando nosso folclore e riqueza histórica, como em “Sombras do Recife” de Roberta Cardoso da Costa Cirne e “Despacho” de Fernando Barone e Samuel Sajo. Mas os holofotes ainda estão nas adaptações de H.P.Lovecraft, que perpassa um auge de popularidade pós-morte desde quando sua obra entrou em domínio publico e passou a ser amplamente publicada – a isso se somam uma quantidade enorme de referências na mídia, como o seriado “Lovecraft Country”, da HBO. A editora Skript, também recente no mercado, tem investido com sucesso nas adaptações do universo do autor em “Os Mitos de Lovecraft” e “A Cor que Caiu do Espaço”, estando atualmente em campanha de arrecadação para a adaptação de “Ar Frio”, com arte de Val Oliveira e roteiro de Romeu Martins.

Para além do horror cósmico, a editora Draco está por trás de projetos extremamente diferenciados de sucesso no gênero como a coletânea urbana “Na Quebrada”, “Shogum dos Mortos” de Daniel Wernëck e a mais recente coletânea  “Arquivos Secretos da Segunda Guerra Mundial”, que flerta com o horror nas páginas do gênero de guerra, relembrando quadrinhos que não se encontram mais (e há muito tempo) nas prateleiras das bancas de revista como as saudosas séries “The ‘Nam” e “War Stories”. Em primeira mão, o Cine Horror teve acesso ao conteúdo para atestar a qualidade do material.

Reino do mal

Dentro do padrão de 8 histórias com 20 páginas cada, “Arquivos Secretos da Segunda Guerra Mundial” vai do real ao fantástico: em “Unser Reich”, com roteiro de Raphael Fernandes, o belo traço de Flávio L. Maravilha assume o trabalho cruel e maravilhoso de imaginar o inferno dos nazistas, com requinte criativo no reflexo das torturas praticadas em Auschwitz. Na história, Beto é um paranormal recrutado pelo exército brasileiro para  contactar um informante entre os soldados nazistas mortos, precisando adentrar  o “umbral” e arriscando a própria vida. O que se segue oferece para o leitor, além de questionamentos morais, os deleites de um perigoso passeio dantesco. Guardando as devidas proporções, existem ares de similaridade com a arte e narrativa presentes em Projeto Manhattan (de Jonathan Hickman e Nick Pitarra), o que é mais que um elogio – no entanto, para melhorar, é uma historia que se situa em sua maior parte na Itajaí de 1943, com personagens, militares e citações bem característicos de nossa história.

Devido ao formato, a narrativa ainda ganha fôlego para discutir pontualmente o conflito entre sexualidade e religião, que permeia a história como uma subtrama, solidificando-se no encerramento. É de se esperar que nas 20 páginas de cada história, tal qual se observa em “Unser Reich” e lidando com um tema forte como a segunda guerra mundial, haja sempre muito o que dizer.

Demônios sortidos

Tratando de formatos que não se encontram mais nas bancas, revistas extintas como Animal, Heavy Metal e até a Chiclete com Banana (que confluiu artistas nacionais em um pot-pourri preto e branco dos melhores que já se viu) sempre se apoiaram no experimental. Apesar de contar com um padrão narrativo para histórias curtas que vem desde os tempos da revista Kripta, muito material variava nessas publicações não só em quantidade de páginas como na linguagem e estética, indo do moderno ao clássico como uma caixa de surpresas. O saudosismo é um elemento que se faz presente nas campanhas da Tai Editora, apostando nos clássicos com o ainda ativo “Contos de Terror do Cazador” dos hermanos Jorge Lucas e Claudio Ramirez e no já encerrado “Necron” do italiano Roberto Raviola. Os integrantes do projeto “Pandemonium”, recém lançado no Catarse, apostam nesse mesmo nicho: um publico adulto que quer consumir material pesado, experimental, múltiplo e sem cortes.

Presente na coletânea, “Simpatia Pesada” se desenvolve como uma história de amor levada ao extremo, com um final que se equilibra entre o cômico e o bizarro. Escrito e desenhado pelo maranhense Rob Saint, a história tem ares da segunda metade dos anos 90 e quase podemos sentir que a personagem sairia de uma locadora de VHS com uma cópia de “Jovens Bruxas”. O traço também assume essa característica, e o próprio Todd McFarlane não parece uma referência tão distante. Mas no final das contas – assim como os demais contos presentes em “Pandemonium” – é uma história que não tem data ou local e sua mensagem final é, da mesma forma, universal.

Após 2020

É preciso considerar que os tempos mudaram bruscamente. Mesmo antes da pandemia, a forte chegada da gigante Amazon e a derrocada das grandes livrarias nacionais já vinha dando ares de uma enorme mudança no mercado editorial. Ainda que se considerasse inicialmente sucesso dos quadrinhos nacionais em financiamento coletivo como uma onda passageira, o reajuste dos olhares para as compras online durante a quarentena aponta justamente o contrário: há espaço, há publico, e cada vez mais esses leitores estão chegando até os projetos pelas vias da internet, apostando nos artistas e nas pequenas editoras. Tudo isso leva a crer que o horror nos quadrinhos, assim como nos cinemas, tende a se perpetuar cada vez mais, aludindo à afirmativa de John Carpenter: esse é um gênero que sempre esteve e sempre estará presente.



Saul Mendez Filho para o Gore Bahia, 15/09/2020

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